terça-feira, 20 de março de 2018

HONRA PISADA


De vez em quando pisam na minha honra
Aí o mundo acaba, desaba
Vem a mágoa, a dor de ser traída
De ser distraída e nunca andar armada
Depois relaxo, relevo e reflito
Como gosto de ser estimada e mimada
Como estou longe da perfeição.
Se entreguei minha honra a Deus
Por que a reivindico com tanta paixão?
E como fica o perdão?
Quem tem a alma carcomida pela traça
Não sabe que a figura deste mundo passa
E é quem mais precisa de oração
E de Deus a bendita graça
Perdoei. Já sarei.

ITAJUBÁ, DO "ENCONTRO AOS DESENCONTROS"



Comemoramos dia 19 de março mais um aniversário de Itajubá. Parabéns para a cidade que avança pelo tempo como uma senhora digna e simpática de quase duzentos anos e cem mil filhos, marcada por uma história de acontecimentos tão curiosos como dramáticos desde seu nascimento até os dias hoje. De fato, se Padre Lourenço da Costa Moreira não tivesse acordado, certo dia, acabrunhado com o pensamento de que sua paróquia deveria ser em local mais propício para o crescimento, Itajubá ainda seria em Delfim Moreira, lugar de incontestável beleza, mas de precárias condições topográficas. Partindo do princípio de que na História não existe “se”, era exatamente assim que deveria ter sido. O “Encontro” que remonta ao início da história de Itajubá foi o episódio da disputa travada entre as povoações do arraial de Nossa Senhora de Soledade de Itagybá, atual Delfim Moreira e arraial de Boa Vista de Itajubá pela posse da imagem de Nossa Senhora da Soledade. A tentativa de transferência da imagem e paramentos religiosos para a nova paróquia foi frustrada pelos fiéis que permaneceram em Delfim Moreira. Os paramentos vieram e a imagem de Nossa Senhora da Soledade ficou, sendo providenciada uma réplica para Boa Vista de Itajubá. Por muitos anos os itajubenses se emocionaram com a tradição de uma carreata entre as duas cidades, que levava e trazia a imagem da padroeira por ocasião de sua festa, acontecimento que fazia recordar o início da história de Itajubá e aumentava o carinho dos fiéis por Nossa Senhora da Soledade.
Padre Lourenço foi tão intensamente seduzido pela natureza exuberante e pela vista encantada que rodeava o rio Sapucaí que aqui acampou com os fiéis, certo de que não encontraria lugar mais adequado e promissor para estabelecer sua paróquia. Se (outro “se”) o padre, nos dias atuais, visitasse seu fascinante recanto, constataria que seu vale já não é tão verde e “suas várzeas já não têm tantas flores”, alto preço que pagamos pelo progresso que merecemos. Arrancamos muitas árvores, alargamos as ruas para que coubessem mais carros, estreitamos as calçadas, demolimos prédios antigos, sujamos os rios e abrimos buracos sem fim. Entretanto, essa moderna situação caótica não é privilégio de Itajubá, mas de quase todas as cidades que sofrem com o uso desordenado dos recursos naturais e com o desenvolvimento desenfreado a que nos expomos sem o perceber, pois os efeitos colaterais geralmente se manifestam mais tarde.
 
Nem tudo está perdido, sempre há esperança, deverá existir algum meio para conciliar progresso e natureza. Haveremos de encontrar uma solução para o colapso do trânsito e a ausência do verde em nossas ruas. Agora, neste 19 de março, não queremos cultivar o pessimismo, ao contrário, torcemos para que a cidade dê certo, afinal, somos seus filhos. Aquecemos e abrimos nossos corações para homenagear a Itajubá do presidente Wenceslau Braz, do Grande Hotel, do Colégio das Irmãs, da Fábrica de Armas, da “mulher de bronze”, dos famosos corais e velhos carnavais, a Itajubá que já tem parque com lago e tudo.
O lugar escolhido pelo padre Lourenço permanecerá. Se (último “se”) a vida se tornar insustentável pelos danos que causamos ao paraíso primordial, não adiantará procurar outro lugar para morar, uma vez que o planeta todo estará comprometido. Necessário será empreender uma nova busca como fez o padre, dessa vez não para encontrar outro sítio, mas sim para reaprender o caminho de volta, aquele que nos faz aproveitar as lições do passado, como resgatar o intuitivo olhar com que o padre Lourenço enxergou Boa Vista de Itajubá, como cultivar o verde de nosso vale, as flores de nossos canteiros e o amor pela cidade que nos serviu de berço e sempre nos abriga. 






sexta-feira, 16 de março de 2018

SE TUDO DESSE CERTO NA VIDA



Outro dia vi no Face uma dessas postagens prontas que falava aos pais para não se preocuparem tanto com o futuro acadêmico de seus filhos, mas sim em ensinar-lhes a honestidade, a compaixão, a delicadeza do acolhimento. Depois, lendo o poema “Sobre a vida dar certo” de minha amiga Debora Laurito Friend, refleti sobre essas questões.
Quando vejo um bebezinho desses de dias apenas, dormindo placidamente e já sorrindo, ou mamando sofregamente no peito da mãe, eu me pego pensando: ai meu Deus! Que mundo espera este ser? Ou o que esta criaturinha vai ter que encarar nesta vida tão competitiva? Pois é. O bebê não sabe, mas desde bem cedo ele vai enfrentar a fila, a luta, a lida, o ringue, vai aprender a duras penas que passados pouquíssimos anos de sua doce vidinha, já irá para a escola, aquele lugar aonde vai se socializar, ou dizendo de outra maneira, vai descobrir em qual das turminhas ele se encaixará melhor, ou menos pior. Vai gostar mais de alguns, menos de muitos. Bem-vindo cara! Esta é a sua vida. Bem-vindo ao inferno que são os outros, ops, bem-vindo ao universo capitalista competitivo. Agora não é nada, espera só e você vai ver mais tarde!
            E logo ele vai descobrir que precisa dar certo na vida porque todos esperam que ele dê certo na vida. Vai ter que tirar 100, vai ter que passar nos primeiros lugares em qualquer ENEM por aí, mas vai ganhar aquela faixa que os pais botam na frente da casa: Parabéns fulano, 1º lugar em tal Universidade, em outra e naquela outra. Isso pode parecer uma coisa boa, contudo esta faixa talvez se torne mais um complicador para suas esperadas futuras vitórias, talvez só sirva para os vizinhos saberem que seus filhos não são tão bons como aquele jovem. Ele vai ter que batalhar aquele emprego sonhado por muitos, vai ter que fazer bonito, vai ter que ganhar dinheiro, muito dinheiro, vai ter carrão importado. Depois vai ter seus próprios filhos e vai ensiná-los como vencer na vida, enfim, como dar certo na vida!
Mas nem sempre damos certo na vida. Às vezes as coisas fogem do nosso controle. Fazemos tudo que está no manual e dá errado. Não adianta seguir uma regra porque as regras são tão quebradas desde que o mundo é mundo. Minha mãe costumava dizer que nunca quis que os filhos tirassem nota máxima, que ser mediano já estava de bom tamanho, dizia até que sentia medo de filho prodígio. Nunca fomos alunos excepcionais, nem pessoas bem sucedidas da forma como a sociedade ou o mercado exigem, afinal, dar certo na vida segundo os padrões atuais pode ser um martírio.
            Afinal, o que é de fato dar certo na vida? Talvez as coisas devessem mesmo dar mais errado pra a gente ser feliz! Pra gente poder contrariar o sistema, contrariar os ditames tidos como certos. Conheci gente que não estudou e foi e é feliz e bem sucedido. Conheci quem brilhou nas escolas e depois empacou. Meu marido me contou que viu o depoimento de uma mulher que trabalhava numa empresa poderosíssima, mas tomava medicamentos o dia todo, aí um dia largou tudo, foi pra roça, pra roça mesmo. Aprendeu a plantar, a colher, e hoje não toma nadica de nada.
            Dar certo na vida? Talvez o certo na vida seja o errado, como disse minha amiga Debora em seu poema “Sobre a vida dar certo” – “Em algum dia, tudo finalmente dê errado, e sejamos felizes”. Eu poderia hoje ganhar mais do que ganho, bem mais, se eu não tivesse saído daquele emprego, mas aí também eu não teria feito as outras coisas que fiz, não teria conhecido tantas outras pessoas fabulosas, não teria me deliciado com tantos saberes e sabores degustados nos livros incríveis que eu devorei, não teria aprendido a escrever sobre o que eu sinto e o que eu penso. Passaria a vida toda sem saber que eu era capaz de fazer um poema. Já pensou?
            E novamente me pego refletindo: Que se dane o certo na vida! Por que não colocamos faixas pregadas na frente de nossas casas, tipo: “filho, eu te amo! Sinto o maior orgulho em ser sua mãe, seu pai, sua tia! Você é um tesouro para mim”. Sem necessariamente que ele tenha tirado a nota máxima, conseguido entrar em primeiríssimo lugar na universidade sonhada, ganhado aquela bolsa de estudos na Finlândia, Canadá ou qualquer outro lugar elegante. Fazer uma faixa assim, simplesmente: e u   t e   a m o   p o r q u e   t e   a m o !    

terça-feira, 13 de março de 2018

Prefácio do livro NINGUÉM NASCE A PASSEIO



PREFÁCIO

“As palavras querem voar como os passarinhos,
Desabrochar em uma margarida.”
(Debora Laurito Friend)

Fôssemos pássaros, talvez não precisássemos de poesia para viver. Voaríamos livremente pelos céus degustando poeticamente a beleza do mundo. Assim, porque nos faltam asas, alimentamos nosso espírito com os poemas que dizem o que sentimos e o que não sabemos como dizer. Há poemas que traduzem tão exatamente o que nos vai na alma que me pergunto onde os poetas conseguem a chave desse dizer encantado, elevando-nos nos ares e nos propiciando ver a beleza e a profundidade dos dias supostamente banais.   
Debora Ferreira Laurito Friend tem a chave do dizer encantado. Diz o que está dentro de nós e não sabemos como externar. Suscita em nós o desejo de escrever, não propriamente o que ela diz tão bem e nem como diz, mas simplesmente aflora em nós o desejo de poetar. “Ninguém nasce a passeio” é um livro que reúne preciosos poemas filosóficos cheios de leveza, apresentados numa linguagem simples e encantadoramente lírica. Debora é poeta, enxerga o mundo com um olhar sensível e sagaz e com o tal dizer encantado nos revela a grandiosidade da vida presente nas questões cotidianas e nos questionamentos humanos. Por isso seus poemas também são profundos e nos fazem refletir sobre a imprevisibilidade da vida e a permanência das incertezas: “Deem-me o direito de não saber! ... Aonde vão com tanta coerência? ... Nosso destino é o mistério.” (Dúvidas) Ou “Sim, eu escolhi a solidão profunda, a imaginação viva e o coração cheio de porquês!” (Felicidade X Verdade).
“Seu direito de não saber” está sempre presente como no estranhamento de si própria: “Posso lhe dizer todos os meus sonhos ... posso lhe abrir todos os meus diários, meus cadernos de poesias ... Posso lhe dizer tudo o que sei, ou que acho que sei. Será que sei? Não sei.” (Quem sou eu?) E ao tentar saber, a resposta se desvanece no ar: “mais eu me estico para agarrar a resposta que foge de mim, como bolhas de sabão”. (Poema sobre sílabas soltas e bolhas de sabão).
Ora ela questiona os verdadeiros valores: “Ser rico de dinheiro nenhum, ser pobre de mão vazia, ser próspero de cores azuis ... Eu quero mesmo poder herdar o arco-íris.” (Uma herança para vida).
Ora constata a inconsistência das verdades que nunca serão permanentes: “Minhas verdades mudam e por isso eu as carrego na mochila. Tenho as mãos livres para recolher as pedras do caminho e quem sabe, as conchas da praia que se aproxima.” (Certas verdades).
“Ninguém nasce a passeio” nos alerta para a inexatidão da vida, das verdades e das certezas. Por outro lado nos alerta para algo que sem dúvida é absolutamente exato: a estonteante beleza do mundo, mas para enxergá-la torna-se necessário “ter olhos e ouvidos que se abram, basta crer”, nos diz Debora em “17 horas”. E há outra certeza para Debora: “Refletindo sobre minha missão de vida, me decidi: quero ser uma catadora de sonhos”. (Ninguém nasce a passeio)
Os poemas de Debora vão na contramão da vida comum, robotizada, da mesmice dos dias. É preciso “contemplar o silêncio”(Poema sobre sílabas soltas e bolhas de sabão), “encontrar sentido nenhum ... não prestar atenção nas horas” (Viver).
“Ninguém nasce a passeio” nos apresenta um mundo difícil, que “parece feio”, porém  pode se tornar belo se tivermos olhos para contemplá-lo nos detalhes, “ainda que o asfalto seja quente e queime a pele” (Ecdise, quando a serpente resolve mudar). Fica patente em todo o conjunto de poemas de Debora que existem duas realidades: a real, cotidiana e áspera em que há um chão onde nossos pés são feridos pela brutalidade do caminhar. Entretanto, como universos paralelos, há outra realidade, a que existe acima de nós, a das alturas, para onde podemos voar e tal como os pássaros, enxergar o mundo sob outra ótica, aquela dos sonhos, dos devaneios e fantasias, onde podemos tocar as cores do arco-íris, saborear a mágica dos momentos “para nutrir-me com o que basta: “Poesia, único alimento para a vida.” (Banquete)
Tenho certeza de que os leitores vão se encantar com os poemas de Debora, talvez até possam voar em suas asas, embora ela continue esperando por elas: “Estou constantemente a ponto de cair, até o dia em que eu crie asas.” (Por um triz)
E nós podemos ter outra certeza: enquanto Debora tiver asas e cumprir sua missão de uma catadora de sonhos, seremos presenteados com belos poemas!