sexta-feira, 2 de novembro de 2018

MULHERES DESDOBRÁVEIS



 Há pouco tempo postei uma crônica já mais antiga, “Quem canta seus males espanta” em que cito a famosa passagem de Jesus com Marta e Maria. Como uma cereja traz outra cereja, logo nasceu o poema Marta e Maria que amei fazer. Então, guardei um comentário da amiga Zali Alkmin que achei muito legal. Ela disse: “seu texto me fez lembrar de uma reunião realizada em minha casa com o Padre Geraldo Barbosa e um grupo de jovens! Eu, tentando servir um lanche e ao mesmo tempo participar dos diálogos! Padre Geraldo então me falou: sossega um pouco, você quer ser Marta ou Maria? Todos riram quando eu respondi: quero ser as duas!...”
            Querida Zali, o fato é que nós mulheres, “somos desdobráveis”, já dizia Adélia Prado. Assim fomos feitas, está em nosso DNA. Somos mulheres, mães (eu não sou mãe mas sou cuidadora por excelência, instinto maternal todas temos ou quase todas), trabalhamos fora de casa, em casa, trabalhamos na Igreja com diversas funções, somos conselheiras, enfim, fazemos de tudo. Eu sempre brinco que Jesus curou a sogra de Pedro "que logo se pôs a servi-los” (Lucas, 4,38) porque decerto Ele e seus discípulos estavam famintos e não havia outra mulher por perto, e afinal, esta era a função que ela mais amava. O que seria dos homens sem nós, mulheres?
            Que bom que somos desdobráveis, mas fiquemos atentas, gente, para saber a diferença entre ação e agitação, pois realmente, o que Jesus condenava não eram os trabalhos de Marta, mas a agitação com que ela se entregava a eles. Também é fato que fomos criadas para sermos Martas, pelo menos as mulheres de minha geração. Porém acredito que isto esteja de fato em nossa fantástica condição de mulher. É da nossa natureza e acho lindo que assim seja. É só chegar alguém que a gente já põe a água no fogo para fazer um café, e logo algum filho ou o marido pergunta: “beeem, onde está aquela calça assim, assim?” E nós sabemos tudo. Estamos sempre atentas, vigilantes em nosso amor. Nosso olhar abarca tudo, tipo assim 360 graus. Somos capazes de perceber que fulano não comeu direito, que beltrano está triste, e lá vamos olhando o assado no forno, sem perder nada.
            Como não me lembrar de minha mãe, sempre tão trabalhadeira, vindo do mercado? Rindo muito, ela dizia que se não tivesse outra coisa para apresentar a Deus depois de sua morte, mostraria as sacolas pesadas com que nos sustentava. Ainda ensinava o corte e costura e jamais perdeu uma cerimônia da Semana Santa. Era uma mulher enamorada de Deus, ou seja, desdobrável ao máximo, era Marta e Maria.
Bem dizem que não deveria existir o “Dia Internacional da mulher” porque todo dia é para se comemorar a grandiosidade de ser mulher. Repito, somos desdobráveis,  somos Marta e Maria, e sem dúvida que Jesus sabia. E em sua sabedoria, Ele só quis alertar Marta a pisar no freio, que mal algum não lhe faria.       

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

VISITA DA POESIA



            Acordo. Num salto me ponho de pé
            Sonhei que a poesia hoje aqui viria
            Será?  
            Era tudo o que eu mais queria
            Agradeço a Deus numa prece.
            Ela demora, mas enfim aparece.
            Paro e me deparo
            Eu me quedo muda de tanto espanto.
            Céus! Jamais a reconheceria!
            Ela vem tão simples, tão bela, tão ela!
Vem sem fidalguia, até meio arredia
E imagine: vestida com palavras do dia a dia.
Me olha nos olhos e me diz sorrindo:
Muito prazer! Sou a poesia!


           

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

DIA DE ELEIÇÃO


            Amanheci nervosa no dia das eleições, 1º Turno. Aposto que não somente eu, mas muitos brasileiros. Tudo o que eu queria era que este período passasse logo. Tomei meu banho, aprontei-me nos trinques, com camisa branca, gola alta, gargantilha bonita, prendi meus longos cabelos brancos, passei um batom cor de rosa e lá fui com meu marido, que trajava uma camiseta preta surrada e trazia no pé um par de botinas da roça. Mottaaa! Por favor, um dia como este, esta camiseta nãooo, cadê os sapatos? Como você é bobinha! Ele sempre diz isso quando implico com a roupa que ele veste. Ao chegarmos ao Colégio das Irmãs, onde estudei um bom tempo de minha vida, percebemos que a fila estava pequena, talvez umas oito pessoas na frente.
            A moça gentil que organizava a fila veio feito uma bala em minha direção. Até pensei que realmente eu estava ficando famosa como escritora porque não raro tenho sido abordada na rua com a pergunta: a senhora é a Misa Ferreira, não é? Eu te conheço do Face, sou sua fã! Hummm!  Mas não, a moça veio e disse: senhora, a senhora tem prioridade, pode vir para o início da fila. Mas já??? Recusei, também gentilmente, alegando que estava tudo bem, eu ficaria ali mesmo. Mas poxa, gente, assim de cara! É só bater o olho em mim para saber quantas décadas eu tenho? Não dá nem para ficar na dúvida? Tantos cuidados com a pele pra ser reconhecida como idosa em qualquer fila? E meu marido, sorrindo descaradamente sarcástico, sem qualquer pudor, cochichou ao meu ouvido: eu, quase 12 anos mais velho que você, escapei incólume ao crivo da moça. Isso não podia ficar assim. Eu disse a ela, olha aqui, meu marido é muuuuito mais velho do que eu. E ela, oh senhor, desculpe, se o senhor quiser pode passar na frente, mas rindo muito, ele se recusou, não, não, está tudo bem. Estamos brincando.
            Só que a fila cresceu rapidamente. E como a previsão de que o número de idosos tende a ser infinitamente maior daqui para frente, foi chegando idoso que não acabava. A moça ficou meio perdida, não sabia qual idoso tirar da fila. O governo tem mais uma prioridade a estudar: a questão da incrível quantidade de idosos. Mas o pessoal estava todo de bom humor, um cedendo o lugar para outros, fazendo brincadeiras e tudo correu bem, pelo menos até quando saí de lá.
Aí lembrei-me de minha irmã que sempre diz que o tempo é generoso para com os homens e cruel para com as mulheres. Às vezes os homens envelhecem rapidamente e ficam até irreconhecíveis, mas na maioria das vezes a mulher é sempre mais atingida e castigada pela inexorabilidade do tempo implacável. Os homens ficam até charmosos com cabelos grisalhos, algumas ruguinhas e uma barriguinha simpática. Já as mulheres, bem, vão ter que se conformar com esta injustiça da natureza. 
Só um incidente na minha vez de votar. Tirei minha colinha da bolsa e lá fui. Já acomodada na frente da tela percebi que a colinha era uma listinha antiga de  supermercado! Moça, por favor, troquei os papeizinhos, vou pegar minha colinha, tá? Tá. Impossível guardar de cabeça tantos números, a não ser o número do presidente, isto é, quiçá futuro presidente.
Fora isso, tudo bem, voltamos felizes pra casa. Vamos acender o fogo, tomar uma cervejinha que o momento requer. Agora, falar sobre política, não, não vou mesmo. Além de não ser nem minimamente qualificada para tal, já cheguei num tempo de minha vida que não quero saber de me aborrecer. Hoje, dia de nossa Padroeira, Nossa Senhora Aparecida, peço à Mãe que olhe pelo nosso querido Brasil. Só Deus!  


terça-feira, 25 de setembro de 2018

LAS VIOLETERAS (apresentando Trio Los Panchos)



Ontem, ao chegar do Café da Ciça, fui arrumar a bolsa, tirar os trecos de lá de dentro, e eis que tiro a violinha e a tiara com flor! Senti a maior ternura! Algo como lembranças de criança, segredos da infância, pequenas grandes alegrias, cheiros de jasmim, o sino da escola que bate pro recreio, coisas assim. Queridas Tânia e Bel, obrigada por compartilharmos essas folias tão preciosas. Como nos divertimos! Tão maduras na idade que já vai longe e com três meninas dentro de nossos corações. Que esta alegria perdure! Obrigada também a todas as "meninas" do Café da Ciça por permitirem que sejamos meninas amigas para siempre.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

AINDA NA CAMA


            Acordo. Ainda está escuro. Geralmente acordo muito cedo porque durmo muito cedo. Não vou me levantar ainda. Aproveito para pensar, rever algumas coisas, planejar o dia, não só o dia, mas a vida, já li não sei onde que sempre temos que idealizar novos projetos, planejamentos, planos B e C, ainda que o A esteja “working”. A gente, dona de casa, mais ou menos né? sempre tem muita coisa para fazer. Se eu não tomar cuidado, fico só por conta de limpeza, de roupa para lavar e passar, limpar aquele armário que já ensaiei mil vezes para tirar tudo de dentro, limpar e arrumar. Depois tem as plantas, cortar os galhinhos secos, não se esquecer de regar. A cozinha já não me meto, a não ser para limpar porque meu marido é meu “chef”, ainda bem. Enfim, em uma casa, diariamente,  sempre se tem muito o que fazer. Se bobear nem chego perto do computador e isso é que não pode acontecer. Escrever um pouco todo dia, este é meu lema diário.  
            Além das coisas práticas como essas, tem aquelas mais complicadas, coisas de família, relacionamentos, aquela conversa delicada que é preciso ter. Então planejo o que vou falar e como falar. Prometo a mim mesma que não vou me exaltar haja o que houver. Sim, conservarei minha serenidade, serei delicada, ponderada, paciente e boa ouvinte.
            Ah, também tenho que planejar o lançamento de meu livro de poemas. Quem diria que viria mais um bebê! Estou encantada com o caçulinha! Está muito fofo!
            Penso no que posso escrever para as próximas crônicas e poemas. Tenho lido tanta coisa bonita. Adorei a carta de Graciliano Ramos para sua irmã, coisa de 1949. Disse ele a Marili: “... Só conseguimos deitar no papel os nossos sentimentos, a nossa vida. Arte é sangue, é carne. Além disso, não há nada. As nossas personagens são pedaços de nós mesmos, só podemos expor o que somos.” Então, gente, tento não perder de vista essas preciosidades. Quando for escrever, tenho que expor minha carne, minhas feridas, aliás, é o que sempre faço. Raramente escrevi algo que não tivesse saído de minhas entranhas.
            Também vou rezar mais, quero prestar mais atenção nas palavras que falo com Deus. Sei que se não ficar atenta, já perco a oração para os pensamentos mundanos que vêm e vão, para as benditas coisas a serem feitas no dia. Então o que me resta é me oferecer ao bom Deus do jeito que sou.
            Bem, assim, carregada de projetos para o dia e para a vida, de promessas para ser uma pessoa melhor, realmente sou sempre cheia de boas intenções. O difícil é que grande parte desses projetos e promessas não passam desses momentos em que ainda estou na cama. No planejamento tudo é perfeito. Mas durante o dia as boas intenções muitas vezes escoam pelo ralo. Sei que o justo cai sete vezes ao dia. E eu? Setenta vezes sete.  
            Como dizia Fernando Pessoa: “conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama.” É verdade. Já vejo claridade pela janela. Hora de levantar! Vou começar pela oração. Deus em primeiro lugar.  
                    

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

DORES DE ALMA


            Não é uma nem duas vezes que me sento em frente ao computador e não sei sobre o que escrever. Não é fácil não, gente, já disse isso. Milhares de assuntos bombardeando minha mente e de repente hesito, não gosto, não está bom, falta algo. E depois alguém me fala: você escreve tão fácil, como se estivesse falando com a gente. Fácil? Quem falou? Quem assiste a um espetáculo de balé se encanta com a graciosidade e a leveza da bailarina, mas não conhece seus pés. Palavra de honra, como dizia minha mãe, que quando alguém me encomenda um texto parece até que é mais fácil escrever. É fato que também sofro do martírio da página em branco.
No entanto há dias em quem acordo e simplesmente escrevo como se tudo já estivesse pronto. Vírgula por vírgula. Estranho né? Mas a crônica é algo simples. Como já dizia Drummond, não há necessidade de comprovação científica dos fatos, a crônica é aquela que não precisa entender de nada ao falar de tudo. É o parecer simples de quem apenas sente ou pensa. Já um conto requer astúcia, um romance então, nem me fale.
            Algumas vezes leio meus autores preferidos e me sinto impelida a escrever. Para mim não há uma leitura que não suscite uma escritura. De outras vezes eu coloco uma música enquanto tento convencer as palavras a dar o ar da graça, e hoje eu estou ouvindo Pino Donaggio “Yo che non vivo senza te”. Gente, esta música é de 1965, pasmem os jovens! E eu acho tão triste, mas tão triste! Por que? Porque eu deixava minha meninice para sempre e tateava minha nova fase na vida num voo às cegas. Era preciso seguir em frente de qualquer maneira. Mas o pior ainda não havia acontecido. Ainda tínhamos nossa casa em Pedralva. Estávamos eu, Agueda e papai na casa da vovó. Meu pai trabalhava agora em Itajubá e nós já estávamos estudando no Colégio das Irmãs. Nos finais de semana voltávamos para nossa casa e eu me sentia a salvo. Por alguma razão que não me lembro apenas eu fui para Pedralva. Papai e Agueda ficaram aqui. E lá constatei com horror que não havia mais a casa, havia, mas não era mais nossa. Demorou pra ficha cair. Outras pessoas já ocupavam aquela casa que era uma parte essencial de mim. Minha sensibilidade não dava conta de segurar aquela perda. Aquela casa e aquela cidadezinha corriam pelas minhas veias. Aqueles sonhos infantis se passaram ali, minha primeira visão de mundo gente! Segui em frente pela vida como quem perdeu uma batalha ou mesmo a guerra. Mas isso é outra história para outro dia.
            Naqueles dias de 1965 e na casa de minha avó, eu ouvia “Yo che non vivo senza te” o dia inteiro nas rádios. E mesmo sabendo que passávamos por uma fase difícil sem dinheiro, eu pedi a meu pai para me dar o compacto. Ele me perguntou: quanto é filhinha?(Ele sempre nos chamava de filhinhas). Eu sabia e lhe disse: 2.500 cruzeiros, acho que era isso naquela época. Ele ficou meio aborrecido. Eu não insisti. Quando chegou pela tardinha, ele me deu o dinheiro. Saí exultante, com o coração disparado e fui comprar o compacto. Meu disquinho, minha música preferida. Não me importei com o que fez falta para ter o que queria. A gente quando jovem é egoísta assim mesmo. Agora que falo nisso, meus olhos ameaçam marejar porque sinto falta de meu querido pai. Tenho bem mais idade agora do que ele tinha naquela época e a velhice, querendo a gente ou não, traz todos os dias pacotes de lembranças. A tragédia da velhice não consiste no fato de ser velho, mas no fato de haver sido jovem. Ado-ra-ria que esta frase fosse minha, mas é do Oscar Wilde.
            Numa noite de dia de semana ele nos levou, a mim e a Agueda num parque por perto e perguntou se queríamos andar de roda-gigante. Fomos nervosas e alegres. Nunca vou me esquecer de quando chegávamos lá no alto e eu o via lá embaixo, magro, sempre calado. Talvez ele se sentisse pior do que eu, mas nunca conversamos sobre isso. Ele não saberia do que nem como falar, ainda não sabíamos da cura pela fala.
Como tudo foi difícil, meu Deus! Ninguém sabe. Como a bailarina, ninguém conhece meus pés. Eu odiava a cidade, odiava o colégio, odiava a vida. Eu entrava na minha amarga adolescência. Prefiro a dor da artrose e do nervo ciático do que as dores da alma. Naquela época eu sofria de fibromialgia da alma, do corpo, da raiz dos cabelos aos pés. Tudo doía. Oh vida! Minha mãe tinha razão. Sem me abraçar porque isto não era o costume da época, ela me dizia: quando você for mais velha, vai ganhar sabedoria, vai saber ver a vida com outros olhos. Valeu mãe!