sexta-feira, 3 de junho de 2022

NOSSOS LUTOS


A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adiche é realmente uma escritora fantástica. Certa vez uma prima compartilhou comigo que desejava ficar lendo apenas os clássicos porque não teria erro. Não é incomum a gente começar a ler livros atuais e parar. Na época concordei com ela, mas há autores e livros muitos muito bons na atualidade, e Chimamanda é excepcional. Já li “Americanah”, um “best seller”, e agora leio “Notas sobre o luto”, que me comove imensamente porque me faz lembrar como nunca da morte de meu pai e de forma contundente. Reflito como nossa vida sempre é e será uma coleção de frases e atitudes de nossos pais. Volta e meia estamos falando: “como dizia o papai” ou “como dizia a mamãe”.

Chimamanda perdeu seu pai em junho de 2020 durante a pandemia de Covid-19 que mantinha a família distante, e ela derrama sua imensa dor em “Notas sobre o Luto”. Lembrei-me da Lia Luft em “O lado fatal” e da Joan Didion em “O ano do pensamento mágico”, duas autoras que de modo diferente abordaram a questão da perda e do luto. Mas Chimamanda vai fundo, toca o meu coração de um jeito especial, sinto suas palavras sendo escritas para mim. Perdi meu pai há dezoito anos, ano em que me casei. Sempre me lembro do dia seguinte ao velório e sepultamento, quando uma conhecida percebeu minhas olheiras e olhos inchados. Ela me perguntou se algo havia acontecido e eu disse: Meu pai morreu e eu vou me casar daqui a poucos meses, informação totalmente descabida e desnecessária, que jorrou de minhas entranhas sem que eu pudesse controlar, talvez como uma espécie de compensação pela perda. Isso apenas me mostrou como ficamos frágeis e descontrolados quando morre alguém que amamos. Não importa o quanto a gente possa parecer que está calma e controlada, simplesmente não estamos. Estamos fragilizados, vulneráveis. O luto é isso.

Assim como Chimamanda, eu tinha muita certeza de que meu pai chegaria aos noventa anos e muito mais. Mas lá se foi ele embora com oitenta e quatro. Um homem bom, decente, honrado e extremamente puro. Como nós o amávamos!        

Os lutos são diferentes como as pessoas são diferentes e também os relacionamentos. Eu amava meu pai do jeito que ele era, nunca desejei que ele fosse diferente. Nunca seus defeitos ou suas fragilidades foram empecilho para o amor entre nós. Me vêm à mente cenas e palavras trocadas antes e depois de sua morte. Me vem a lembrança de minha irmã inconsolável à mesa da casa de meus pais, dizendo e repetindo: a melhor pessoa de todos nós, a melhor pessoa de nossas vidas foi embora, nunca mais! Nunca mais. Este estar junto logo após o sepultamento é muito importante porque ali, naquele momento, vamos compartilhando afetos, consolos, entre lágrimas e frases entrecortadas, entre risos tristes quando alguém se lembra de algum fato engraçado sobre a pessoa. Enfim, a gente ri e a gente chora junto. O luto é isso. Ele pode durar muito ou pouco, vai se reconfigurando até que fica uma lembrança terna, mas as lágrimas sempre vêm nos visitar.   

Eu sempre me pego pensando nele quando repito algum gesto seu. Explico, meu pai era ansioso, sempre querendo cumprir tudo de uma vez. Também sou assim. E quando cumpro alguma tarefa, aí digo para mim, isso Misa, muito bem, agora é só descansar, está tudo certo. Aí a outra de mim me alerta: Não, Misa, não está tudo certo. A vida é incerta, a vida é um mar de incertezas. É bela, é preciosa, mas é incerta e inexata. Hoje estamos aqui, todos estão bem. Amanhã? Não sabemos, ninguém sabe. Portanto, por hoje, se suas costas estão doendo, vai deitar. Deixa a limpeza para outro dia, para depois.

A inexatidão da vida e a incerteza regem o mundo e permeiam nossas vidas, mas eu falo isso sem pessimismo, nem tristeza, nem morbidez. Falo com naturalidade, pensando sempre no amor de Deus e na paz de Jesus. Vivemos de lembranças, vivemos de ternura. Outro dia eu me lembrei de quando vi daqui de minha janela meu pai ainda muito bem, já idoso, mas firme, caminhando ao longe. Nunca aceitou usar tênis nem roupas esportivas, mas fazia sua caminhada. Eu fechei os olhos e abri de novo, esperando vê-lo como naquele dia, de bonezinho.

Minha irmã também me contou um sonho que teve com ele. Foi em Pedralva, na primeira casa onde moramos. Meu pai descia a rua da casa do Chinho vindo de lá de cima. Minha irmã ficou esperando para encontrá-lo, pois o natural seria que ele se dirigisse para nossa casa. Surpresa, ela viu que ele desceu reto, sem sequer olhar para ela ou para sua própria casa. Ela entendeu que ele não morava mais nas casas terrenas, nem mesmo em sonhos.  

FELIZ ANIVERSÁRIO

 FELIZ ANIVERSÁRIO!

Misa Ferreira

 

Sempre fiquei encantada com os aniversários. Este fascínio vem desde menina e procuro conservar este encantamento. Não ganhávamos festas, mas sempre teve um presentinho e um abraço de mãe e pai. Eu acordava e me lembrava de que era o aniversário: pronto, era o que bastava pra me dar toda ao dia, feliz como uma princesa ou como uma criança tem o direito de ser. Quando a gente é criança tem a mordomia de não precisar lutar para ser feliz, temos aqueles que fazem das tripas o coração ajeitando a vida daqui e dali para preservar nossa felicidade. Contudo, eu sei que tem crianças que sofrem, desde o mínimo sofrimento até atrocidades inimagináveis. Eu sei.

Bom, mas como estava dizendo, era o dia mais importante da minha vida. E segui pela minha vida afora sem perder o encantamento, também já disse isso. É claro que houve aniversários tristes, pois há dias de tristezas e luto e a tristeza nunca tarda para fazer sua ronda. Uma conhecida amiga perdeu seu pai num acidente no dia de seu aniversário. Nunca vou me esquecer de quando meu pai estava internado e muito doente. Era meu aniversário e meu celular tocava a todo instante com minhas primas sem jeito de me cumprimentar, porém querendo me consolar. Eu não podia articular uma palavra que fosse porque temia desabar num choro que não ia acabar nunca mais. Sim, há dias alegres e dias tristes para todas as pessoas, pois Deus faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos. E também derrama tristeza sobre os dias comuns e dias de aniversário.

Houve muitos aniversários alegres, isso houve sim, verdade seja dita e justiça seja feita. Quando minhas amigas e eu fizemos cinquenta anos, demos uma big festa, com bolo, velinhas e ponche. Fizemos uma festa badalada, enfeitamos meu espaço na cobertura, colocamos mesinhas e cadeiras, bebemos e dançamos. Dançamos de tudo, houve até hully gully, quando uma amiga encabeçava a dança e todas seguiam. Só risadaria. Uma amiga de minhas amigas fez até versinhos de cordel:

A história que vou narrar

Em versinhos de cordel

É de três grandes amigas

Tânia, Misa e Izabel

A Bel nasceu em abril

Tânia e Misa, um barato!

Em maio e no mesmo dia

São do mesmo decanato

E por aí vai. Foi uma festa memorável! Um dia de aniversário inesquecível! Pretendemos fazer outra para o próximo ano. Estão todos convidados!

Mas eis que não faz muito tempo ouvi uma palestra do querido e saudoso Dom Henrique Soares em que ele pergunta se sabemos qual é o dia mais importante de nossa vida. Bem, muitas pessoas responderam e eu também que era o dia de nosso nascimento. Ele então explicou que era o dia de nosso batismo, o dia em que fomos inseridos na família de Deus! O dia em que deixamos de ser criaturinhas para sermos filhinhos de Deus e de fato o somos! Amanhã precisamente, 17 de maio, será meu aniversário de batismo! O dia mais importante de minha vida, que pretendo comemorar com muita alegria!

Ofereço este texto para minha amiga Kao que faz aniversário hoje. Ficamos amigas por conta da crônica “Nos tempos do Redingote”. Ela em Portugal recebeu e leu meu texto, localizou-me facilmente e nos tornamos amigas. Somos almas gêmeas, Kao costuma dizer e eu também. Nascemos até no mesmo mês, com poucos dias de diferença. Feliz Aniversário Kao! 

SUMÉRIOS E ET DE VARGINHA

  

            Volta e meia eu e meu marido estamos falando de alienígenas, de existência de Deus, fatos da Bíblia e outros babados. Eu sou cristã católica, ele diz que não é nada, e está sempre buscando nos livros e documentários da vida as provas de que está certo. Não é a primeira vez que ele vem com um papo de que os Sumérios sabiam de coisas que até Deus duvidava. É fato. Os sumérios da antiga Mesopotâmia que depois veio a ser o Iraque, há mais de 4.000 anos antes de Cristo, deixaram documentados conhecimentos incrivelmente extraordinários para sua época remota. Quantas vezes ouvi nas aulas de História da Irmã das Graças: “sumérios e assírios na Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates”. Esses povos já sabiam que a Terra era redonda, tinham rede de água potável, conhecimentos astronômicos que fazem a Nasa babar de inveja. Supõe-se pelos documentários que os sumérios tenham recebido tais conhecimentos de algum povo alienígena evoluído. Aliás, entre os documentos deixados por eles, tal fato é relatado.

            Aí rola nosso papo. Eu digo a ele:

- Esses alienígenas são muito estranhos mesmo. Sabedores de tudo, vêm, fazem visitas esporádicas aos humanos, repassam conhecimentos preciosos, depois desistem deles, deixam os pobres dos sumérios ao Deus-dará, eles são conquistados pelos povos vizinhos, os caldeus, sei lá, e todo o conhecimento fica perdido.

- Perdido nada. Abraão que era caldeu apoderou-se de tudo. E quem falou que são visitas esporádicas? E o ET de Varginha, como é que fica?

- kkkkkk, é verdade. O ET de Varginha, nosso ETezinho mineiro. E os milhares de casos comprovados de que os alienígenas vieram e vêm à Terra a todo instante? E aquele caso do deserto de Nevada nos Estados Unidos? Até a Rita Lee viu inúmeros discos voadores. Ela diz em sua autobiografia que o primeiro disco voador a gente nunca esquece. 

- Mas até os alienígenas evoluídos têm lá suas fraquezas. Se foi verdade mesmo, deram a maior bobeira lá no deserto de Nevada, aquele caso lá na década de 40. Dois seres extraterrestres se esborracharam no deserto sabe-se lá por que. Teriam bebido? Mal sabiam pilotar a nave! O fato é que foram aprisionados pelo exército americano que deve ter feito tudo que é experiência com os coitados dos pés à cabeça. Nunca mais se soube deles. E o boboquinha do ET de Varginha? Diz o povo de lá que o ET era horrorosinho de feio e ainda ficou acuado em um muro, tremendo de medo das meninas que não paravam de gritar. Este já ficou prisioneiro dos militares brasileiros mesmo. Pobrezinho!

- Parece que o ET de Varginha foi despejado da nave porque não acharam nenhum vestígio dela. Talvez fosse um dissidente, um traidor de seu povo que queria se livrar dele. Um ET reencarnado daqueles que ensinaram os sumérios tantos conhecimentos.

            E por aí vai. Sobre a Arca de Noé, meu marido se diverte com a história. Diz que Abraão que veio da Caldeia, ficou sabendo dos segredos e conhecimentos dos sumérios, o povo queridinho dos alienígenas. E que Abraão contou a história do dilúvio plagiando uma história de uma grande inundação ocorrida na Caldeia, ou Mesopotâmia ou Iraque hoje. Ele me pergunta:

- Você acha que Noé poderia recolher espécies de cada ser vivo do planeta? Como? Animais, insetos, etc. e as plantas, também? Sementes e mais sementes de tudo? Dizem que até macacos e antas brasileiras quando souberam da Arca, correram pra lá pra serem salvos!

- Meu filho, tudo é possível. “Tudo é possível ao que crê!”

            E assim vamos, entre ETs, Abraão, discos voadores e muito vinho.   

 

COMPETIÇÃO E COMPETIDORES

 

O homem é um ser competitivo, disso não tenho a menor dúvida, a competição está nas entranhas do ser humano. As pessoas competem entre si em todas as áreas, principalmente na econômica, riqueza, bens materiais, também no sucesso pessoal, vantagens sociais. A famosa “grama do vizinho” que é sempre mais verde do que a nossa! Um amigo costumava dizer assim: é complicado, a gente vai, trabalha e economiza e consegue comprar um carrinho novo e fica feliz da vida! Acontece que o vizinho aparece com um carrão importado lindão! E aí? A gente fica pensativo, não é?

Se a pessoa não tem uma boa dose de nobreza e de generosidade, ela vai sofrer por essas coisas. Aquela máxima de ser grato por tudo ainda é a melhor maneira de viver, isso faz a alma crescer.

Bem, sou uma contadora de casos, então vamos aos casos: Já faz tempo isso, encontrei com uma conhecida que há muito tempo não via. Conversa vai, conversa vem, ela me contou de uma viagem que havia feito percorrendo muitos lugares da Europa, contando detalhes de cada lugar. Relatou também uma peregrinação que fez a Jerusalém e outros lugares sagrados e tal e tal. E ela falava como se fosse o único ser vivente que tivesse viajado. Eu ouvia tudo pacientemente com vontade de interromper, mas fiquei firme. Até que ela perguntou assim: você não tem vontade de viajar? Aí entrei: eu viajo, não tanto mais agora, mas já viajei. Aí ela: mas Jerusalém você não conhece. Encerrei o papo dizendo: por um acaso conheço sim.

Eu poderia ter me calado, mas sou humana, cheia de defeitos, é sim, sou sim. Aí foi que caí de boca na competição, agora era uma questão de honra. Perguntei a ela: e Bruges, você conhece?

- Não!

- Não? Perguntei sentindo em minha própria voz um tonzinho ou um tonzão de vitória, um gostinho de prazer, ao que acrescentei: você não sabe o que está perdendo! Precisa ir lá, é um espetáculo. Depois me arrependi. Que bobeira! Que pobreza! Fiquei pensando em como Nossa Senhora reagiria, sempre penso nisso. Ela ficaria em silêncio, deixaria a pessoa pensar que era a única a conhecer os lugares. Grandes coisas, como costumávamos dizer antigamente. Oh meu Deus, já estou velha, quando vou aprender essas coisas tão preciosas!

Enfim, a concorrência é uma coisa tão cruel que pode chegar a um nível inacreditável. Explico: eu e minha irmã voltando da Canção Nova demos carona para duas senhoras. Logo percebemos que as duas estavam meio emburradas uma com a outra. Foi quando começou o assunto de doença. Uma delas contou para nós que tinha uma hérnia de estômago ou de esôfago imeeensa, fazendo questão de dar ênfase ao “imensa”. A outra caiu na desgraça de dizer que também tinha e que a dela também era grande. A primeira não gostou e disse que a sua hérnia era muito maior que a da outra, que podia provar por exame e que o médico até havia lhe dito que nunca em tempo algum tinha visto uma hérnia tão irrepreensivelmente gigantesca. Falando daquela maneira, tão orgulhosa e com aquela retórica exemplar ao esmiuçar os detalhes sórdidos de sua hérnia, confesso que faltou pouco para ficarmos com vontade de ter uma hérnia tão top como a dela. Fala a verdade!  

Fez-me lembrar de quando eu era criança e morria de vontade de quebrar o braço para ir de gesso à escola! Faz sentido. Mas gente, agora não somos mais crianças. São Paulo diz: “Quando eu era criança falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Desde que me tornei adulto, eliminei as coisas de criança” (1 Coríntios, 13, 11)

Enfim, “busquemos as coisas do alto” (Colossenses, 3, 1)

quinta-feira, 14 de abril de 2022

ESPERANÇA

 ESPERANÇA

Misa Ferreira

 

Essa que em mim se embrutece

Quando o mal acontece

E o caldo entorna

É essa que também se enternece

Vigiando um bebê em sua madorna

 

Essa que em mim chora

Quando tudo parece perdido

É a mesma que sorri sem demora

A crer que

De hora em hora Deus melhora

 

Essa que em mim se entristece

Vendo o mundo se desmanchar

Sofrendo e sentindo o chão faltar 

É a mesma que tudo agradece

E louva a Deus em uma prece

 

Essa que em mim sente medo

Angústia e insegurança

É a mesma que nunca se cansa

Que luta, que sofre, que ora, 

Que teima em ter esperança.

 

 

 

 

 

SANTA QUARESMA


E já chegamos aos últimos dias da Quaresma deste ano, quarenta dias de reflexão.  Gosto deste tempo, das cerimônias na igreja, das músicas! As músicas de Quaresma, a Ladainha de Todos os Santos na missa da Páscoa, aquela em que os ministros vêm aspergindo água benta com galhos e todos cantando: “Banhados em Cristo somos uma nova criatura, as coisas antigas já se passaram, somos nascidos de novo, aleluia, aleluia ...”. Que beleza! Como dizia minha mãe. Agradeço a Deus pela semente plantada por ela, de como fomos com o tempo resgatando tudo o que ela prezava! Fomos juntas algumas vezes assistir a missas de Páscoa, e a emoção da hora em que apagam as luzes, todos com velas acesas, depois acendem as luzes, os sinos repicando.  Não tem preço essa beleza toda. É como quase estar no Céu!

Bem, mas até chegar à Semana Santa propriamente dita e à Páscoa, temos a caminhada das reflexões, as vias sacras, as matracas. O difícil são as penitências, sacrifícios e jejuns. Minhas primas, mais piedosas que nós, não comiam doce ou carne na Quaresma. Na casa de minha mãe já não comíamos carne às sextas feiras durante todo o ano. Penso que com a modernidade outros sacrifícios são também valiosos como privar-se da televisão, dos filmes, da Netflix e afins, mas confesso que acho muito difícil me desfazer desses bezerros de ouro. E o que tanto os pregadores recomendam, o jejum da língua, o silêncio máximo, dificílimo! Não falar dos outros, guardar no coração. Intenção é o que me sobra. Contudo, o que Deus mais quer de nós é um coração alegre e que confiemos em sua bondade e misericórdia, faça chuva, faça sol. E olha que às vezes faz mais chuva.

Sou encantada com o mundo, não é para menos, o mundo é de Deus. Falo mundo no sentido da natureza, das estações que se alternam, da chuva que cai do céu, das flores, da lua tão pertinho de nós girando em volta da terra e de si mesma, do mistério dos mares, das criaturas, dos sentimentos que nos emocionam, das lágrimas que em seu estranho e belo engenho afloram das nossas fontes subterrâneas. Como não me lembrar que fomos idealizados e criados por Deus. Sou encantada com o mundo e também sou mundana. Gosto de guloseimas, de vinho, de filmes, de viagens, de compras. Pendo para um lado, pendo para o outro. Contudo, sou eterna apaixonada por Jesus.  

Leio Saramago, Mia Couto, Graciliano Ramos e também Santo Agostinho e as duas Teresas. Sei na ponta da língua e do coração o que disse uma e o que disse outra, se bem que ambas nos ensinam a chegar perto de Deus. Os santos são nossos amigos e professores que nos ajudam na caminhada. Contemplo, emocionada, as feições serenas de Santa Catarina Labouré e Santa Bernadete em suas urnas. Há nelas algo que eu nunca teria, mas queria. Não, não devo dizer nunca – o caminho da santidade é aberto, livre a todos, não há nada que nos impeça. Contudo, um esforço é necessário, lembro-me de Santo Agostinho: “Mas tenho que achar tempo, tenho que repartir as horas para ocupar-me com a salvação de minha alma ... deixemos de vãs frivolidades, dediquemo-nos à busca da Verdade ... a vida é infelicidade, a hora da morte é incerta, esta chega de repente e eu, em que condições deixarei este mundo? Onde poderei aprender o que nesta vida negligenciei saber? Não terei antes que pagar com duras penas essa negligência?”

Basta um desejo que arde no peito e uma vontade forte e plena de querer a Deus!

Santa Quaresma e Feliz Páscoa!        

 

HISTÓRIAS DE MINHA VIDA


Acho que já falei isso por aqui: sou uma contadora de histórias. Não querendo ser narcisista, mas sendo porque sou, assumo que falo quase sempre de mim, ora, eu sou a história que mais conheço. Quando tenho que falar de outras pessoas, falo só o que edifica.

Se já fiz cirurgia plástica?

Sim, fiz sim senhor, pronto. Confesso que fiz, confesso que vivi. Não fiz só uma, duas para ser exata. Mas a primeira não vale porque não foi plástica para esticar nada. Eu era jovem, bonitinha, mas com um nariz adunco imenso, um nariz que veio na hora errada, no lugar errado. Como podia uma moça miúda, como eu, com rosto magro e pequeno, suportar um nariz de tucano? Fala a verdade! Eu morria de tristeza. Meu sonho era mesmo cortar um pedaço do nariz.

Bobagem? Não, não é. O primeiro mocinho que me cortejou fez um carinho em meus cabelos e depois pegou no meu nariz, dizendo: ah sua nariguda! Eu quis morrer, também quis matar o cara. Não, não e não. Eu não ficaria com um nariz daqueles. Nunca. Assim que comecei a trabalhar, ajuntei um dinheiro e fui às vias de fato. Mas não fui sozinha. Uma colega de trabalho também queria fazer plástica no nariz e assim combinamos fazer a consulta juntas, uma dando coragem para a outra. Para dizer a verdade, eu não precisava de coragem, precisava só de dinheiro, o que já estava resolvido.

Eu ainda morava na casa de minha mãe e ela não gostou nada dos meus planos. Ficou brava com minha vaidade e disse que não ficaria comigo no hospital, que eu ficaria sozinha. Primeiro, eu tinha companhia de cirurgia e de quarto. Segundo: meu desejo era tão grande de me livrar daquele nariz de tamanduá que nada havia que pudesse me fazer desistir. Terceiro: eu não queria que ela fosse, ela ia acabar ficando preocupada até que eu voltasse da cirurgia. E as cirurgias plásticas do tempo das cavernas demoravam pra caramba.

Pois bem, lá fomos nós e nos internamos na véspera. Eu fiquei no espelho do banheiro olhando meu nariz com desdém: é amanhã que me livro de você! Se dormimos ou não, não me lembro. Eu não estava preocupada, estava sim ansiosa por me ver sem o narigão. A enfermeira veio e me levou primeiro. Fui exultante como se estivesse indo receber o Oscar. A cirurgia demorou muito. E eu feliz! Me levaram de volta para o quarto e qual não foi a minha surpresa ao dar de cara com minha mãe, arrependida, que veio nos salvar. Aliás, ela chegou na hora exata para salvar minha colega que não querendo mais operar, entrou em desespero total e estava tentando pular a janela. É verdade que estávamos no primeiro andar, mas mesmo assim era muito perigoso. Ficamos tentando convencê-la, afinal, já que estava no último round, não podia desistir.

No quarto, eu não queria me deitar, queria ficar em frente do espelho namorando meu novo nariz, como se fosse possível enxergar o nariz debaixo de um calhamaço de gesso que mais parecia um capacete de astronauta! Minha mãe pedia, clamava e implorava: Maria Luiza, deita, pelo amor de Deus! Você foi operada. E eu ia pra cama, deitava cinco minutos e já me punha de pé em frente ao espelho. Vê se pode? Eu me lembro. Conclusão: o gesso ficou todo manchado de sangue. Depois de horas e horas voltou minha colega, completamente desacordada. Na posição que a colocaram, ali permaneceu por mais horas e horas. E eu da cama pro espelho, do espelho pra cama todo o tempo. Pobre mamãe!

Bom, foram quinze dias de gesso e um tampão horroroso que tapava qualquer vestígio de ar. Tivemos que suportar quinze dias só respirando pela boca, dia e noite. Mas eu estava feliz! Hoje em dia acho que o tal tampão fica apenas um dia, talvez uma hora. Acredito mesmo que fomos as pioneiras de plástica medieval de nariz aqui em Itajubá.

Passados quinze dias, fomos ao hospital para tirar o “capacete”. Quando o médico retirou o tampão eu senti algo gelado entrando em meu nariz: era o ar! Que maravilha! Já livre do gesso, mas sem nem um espelho na sala onde estávamos. Pode? Idade Média é pouco! Cuidadosamente, eu acariciei o meu nariz e só pelo tato percebi o quanto ele estava menor. Que alegria! Lembrei-me de que tinha um minúsculo espelhinho de batom dentro da bolsa, saquei apressadamente o espelhinho e olhei: magnífico! Que sensação de vitória! Minha colega não ficou contente com o dela. Mais tarde fez uma correção. Há que considerar que isso se passou em 1977. Gente, tudo era meio ou muito jurássico.

Para finalizar, a segunda plástica, essa de fato foi para esticar as rugas, foi em 1999. O cirurgião de Belo Horizonte me convenceu a fazer uns retoques no nariz, ele me disse que o modelo estava ultrapassado. Fiquei satisfeita com a cirurgia! Já mais velha, mais contida, não pude deixar de exibir um mega sorriso quando me vi no espelho.

Tudo passa! Hoje estou precisando de toques e retoques em tudo, mas, não, nana nina não. Agora, só retoques na alma que anda sempre precisada. Afinal, a alma permanecerá, é nosso castelo interior e deve estar repleta de formosura e dignidade. Para esta operação só existe um cirurgião: Jesus. A cirurgia às vezes dói muito, traz muitas lágrimas de ternura, de arrependimentos e aceitação. É a mais linda cirurgia que existe!

Saudades de minha mãe! Ela ficou preocupada e foi em busca de mim, queria cuidar de mim. Nunca se conformou com minha vaidade! Era modestíssima, sem nunca ter usado um batom. Também, gente, ela nunca precisou de plástica em nada, com aquele rosto de Ingrid Bergman e aquele narizinho fininho!

Não adianta ninguém pedir, não vou mostrar nenhuma foto de meu nariz de tucano.

Só tenho mesmo uma coisa a dizer: Confesso que vivi!