quinta-feira, 31 de outubro de 2019

ACADEMIA E HEIDEGGER




Vi uma postagem no Face outro dia que me fez rir muito: “Eu queria deixar meu corpo na Academia e ir buscar só quando estivesse pronto.” Esta sou eu. Não é a primeira nem a última vez que falo em Academia de ginástica, musculação e essas torturas aí. Alguém poderá argumentar: ora, então não vá, não faça, ou faça hidroginástica ou Pilates. Bem, é verdade que reclamar é uma coisa que sei fazer muito bem. Hidroginástica é uma delícia quando já estou na água morninha. Mas tirar o maiô molhado, vestir a roupa, lavar o maiô, por pra secar, isso mais aquilo. E no tempo de frio? Não. Definitivamente não. Pilates também é menos pior de ruim, mas caríssimo. Enfim, odeio, e adoro brincar com o assunto.
E aproveitando em “deixar o corpo na Academia e ir buscar quando estiver pronto”, quem sabe no futuro, teremos um avatar que vai fazer as coisas chatas que não gostamos. E não há como não me lembrar do filme Avatar. O protagonista entra numa espécie de coma profundo, ausenta-se do próprio corpo e passa a ocupar um novo invólucro ou um avatar criado, saudável e perfeito. Uma experiência maravilhosa para Jake Sully que, sendo paraplégico, consegue andar, correr, sentir o contato dos pés com a terra e realizar proezas incríveis como voar. Este avatar ocupado por Jake traz para ele a liberdade perdida, a autonomia sonhada. Na verdade, nosso avatar não precisaria de Academia, era só acordar do coma, perfeitinho. Poderíamos escolher o corpo, mas isso seria um problema porque todas as mulheres seriam Gisele Bündchen.
Já me conformei, porém não sou perfeccionista em se tratando de fazer ginástica. Se surge algo que dificulta minha ida, não vou e pronto. Ah, mas você é magrinha, não precisa. Quem falou? E a artrose? Artrite? Como é que fica? Magrinha ou não, sabemos que os exercícios fortalecem os ossos, músculos e articulações impedindo as limitações físicas mais tarde. Então batalhamos não só para o futuro, mas exatamente para agora, pois não nos esqueçamos de que vivemos o momento presente. Por outro lado, não quero chegar lá na frente e dizer, ah eu poderia ter me preparado. Garantias, não temos nadica de nada nesta vida, mas façamos o dever de casa.
Estou lá, né gente, remando como um autêntico Ben Hur nas galés, puxo os braços e empurro os pés, sou abduzida no exercício de Abdução na máquina e outros tantos que nem sei falar o nome. Os meninos e as meninas instrutores são uns amores, a secretária, nem tenho palavras. Dou o maior trabalho, nunca decoro nome de nada, erro na postura, mas estou lá, isto é, quando vou.
Mas por que Heidegger? Por que Academia e Heidegger? Bem, hoje eu presenciei dois meninos novatos que estavam confabulando baixinho algo sobre os exercícios, aí captei um deles perguntando ao outro qual era o exercício de “encolimento”. E eu, aquela que odeia Academia, me dirigi a eles explicando com detalhes o tal exercício. Eu própria fiquei estupefata com meu atrevimento. Não é que passados seis meses de Academia, três de presença concreta, eu de repente me flagrei familiarizada com aquele ambiente? O sábio e filósofo Heidegger que tinha razão: “O homem é um ser de possibilidades.”  
 



TRAÇOS E LAÇOS DE TERNURA



            O quão longe no tempo pode cada pessoa guardar suas mais ricas e remotas lembranças? Bem, eu me lembro de quando morava na “casa de cima”, como a chamávamos. Minha mãe se referia ao lugar onde morou em Cristina como “a rua de baixo” e eu adoro essas expressões familiares tão originais, tão queridas! Mas não é sobre isso que quero falar. Então, já estávamos na cama, nós os primeiros filhos, os mais velhos, quando minha mãe entrou em nosso quarto para mostrar à tia Odete que nos visitava, como estávamos bonzinhos e bonitinhos em nossas caminhas. Foi quando apontou para mim e disse: ela dorme igualzinho ao pai, com o braço debaixo do travesseiro, já o irmão dorme como o tio, e por aí vai ou por aí ia. É como diziam e como dizemos, o fulano puxou mais ao pai, ou puxou ao avô.
            Todas as vezes em que fico recostada em minha cama com meus livros de oração eu me lembro de minha avó com a “Liturgia das horas” ou algum missal, em seu colo. Ela descansava a perna que tinha uma ferida profunda e de quando em quando parava a leitura para coçar em volta da ferida. Não preciso de uma foto para guardar essa lembrança tão preciosa. Ficará impressa em minha mente e em meu coração para sempre. Mas então eu penso: lá estou eu aqui com meus livros de oração exatamente como minha avó. Eles se vão e nós continuamos em seus postos.
E também, fisicamente, vamos ficando como nossos pais. Ah o fulano era tão bonitinho, tão magrinho, agora está o pai escrito, sem cabelo, bochechudo. Ele quando jovem não tinha nada do pai, agora! Nossa! Incrível! Nossos traços vão sendo configurados e reconfigurados até que ficamos como eles. E nós, mulheres, vamos “salvando” em nós os traços de nossas mães.
Um dia, eu voltava do mercado, carregando sacolas, distraída da vida quando parei em frente a uma clínica de vidros espelhados. Mulher vaidosa que sou, não resisti ao impulso de me ver refletida nos vidros. O fato é que me achei incrivelmente parecida com minha mãe, parecia vê-la surgindo das brumas do tempo. Já ouvi dizer que se as mulheres quiserem saber como serão no entardecer da vida, basta olhar para suas mães. Terão um retrato fiel de sua imagem no futuro. Mas não é só o físico, na verdade é muito mais. Parece vir de dentro, são os modos, os cacoetes, o jeito de sorrir ou falar. São muitos os detalhes, antes escondidos, como se às filhas estivesse destinada a missão de ocupar o lugar do corpo e alma de suas mães.
E não paramos por aí. Vamos empregando as mesmas expressões que usavam. Quando minha irmã me conta algo que acho descabido, eu digo, “essa é de gloriosa” como minha mãe dizia sempre. Ou quando duvido que algo seja feito ou cumprido, por exemplo, de hoje em diante, vou ser assídua na ginástica. Aí eu digo pra mim: “vai que frange”. Era assim que minha mãe falava, como quem queria dizer: “vai nada”. 
É com emoção que constato que de tudo que já escrevi na vida, de todos os livros, crônicas, contos e poemas, eu posso seguramente afirmar que 80% é sobre minha mãe.  Tá certo. Mãe é mãe. E como dizia Adélia Prado: “Quero minha mãe”.           

           

ARMADURAS


ARMADURAS
Misa Ferreira

            Fuçando aqui na minha papelada achei uma frase do Oscar Wilde que gostei muito quando li. Acontece que é tanta coisa que a gente lê, tanto livro, tanta informação que a gente se esquece, sem contar que com a idade vamos nos esquecendo de nomes e de tudo com mais rapidez e facilidade. Aí a gente começa a dizer assim: ah, aquele ator, ah meu Deus, como é que é mesmo o nome dele? Ah aquele que fez aquele filme com aquela atriz, ah meu Deus, aquele filme, como que é mesmo o nome?
            Bem, vamos à frase do Oscar Wilde: “quando somos felizes, somos sempre bons, mas quando somos bons, nem sempre somos felizes.” Legal né? Verdadeiro. É fácil ser bom quando se é feliz. A felicidade, mesmo frágil, passageira, facilita nossa bondade. Mas quando a felicidade faz as malas e parte, quando o céu escurece e as nuvens despejam aquele aguaceiro, ficamos pessimistas, tristes, desanimados e ficamos tão envolvidos com nossa dor ou nossa tristeza que nos esquecemos de ser bons. Vamos dizer de outra forma, acariciamos nossa dor e nem percebemos a dor dos outros.
            E quando passamos por algo triste, por alguma perda ou mesmo quando alguém pisa em nossa honra, vamos fechando as portas. E vamos nos encerrando em nossas armaduras porque elas aparentemente nos protegem dos ferimentos. E nos armamos até os dentes para que tudo fique devidamente guardado. Não queremos ser feridos, é lógico, quem quereria? Mas gente, a armadura é uma armadilha porque se não enfrentamos o dragão olhando nos olhos, ele nos destrói, a armadura é um ledo engano. Olhar o dragão nos olhos eu até olho, já deixar que ele me olhe nos meus, isso não. Se ele fizer isso, vai perceber minha fraqueza. E isso eu não mostro. Não entrego o ouro pro bandido. Sorrio enquanto digito.
            Recebo uns artigos em meu email e outro dia li algo muito pertinente à armadura: “Nós nos sentimos como impostores porque, de fato, somos. Sabemos que somos falhos e sabemos que é perigoso mostrar às pessoas tudo sobre nós, assim, nós escondemos algumas partes de nós.”(Dan Pedersen). Com a armadura temos a ilusão de nos protegermos.
            Bom, eu sou transparente, mas nem tanto, há partes obscuras de mim que não mostro, nem sei se as conheço bem. Por outro lado, tenho tentado melhorar, tenho tentado me desarmar, até já tiro a armadura para dormir. Quando estou feliz, minhas asas se aprontam para voar, mas quando chegam as nuvens pesadas, aí o mundo acaba, desaba, é a hora de deixar a armadura no modo ligado, é a hora perigosa, a hora em que estamos fragilizados.
Mas, bobagem, bom mesmo é dar a cara à tapa, é andar de cara lavada, de ser uma só na tristeza e na alegria e tentar ligar a bondade no modo ativo.
            Recebi de uma amiga um livro muito bom que recomendo aqui: O Cavaleiro Preso na Armadura de Robert Fisher. Este livro me inspirou a escrever sobre nossas armaduras e suas armadilhas. 
P.S. Quando nascemos recebemos entre outros bens, a ousadia e a coragem, mas aí vieram os dragões e as tiraram de nós, deixando o medo. Cumpre resgatar o que é nosso. Enfrente o dragão. Sem armadura.
                        

CONSELHOS



            Tive a oportunidade de ler um texto muito bonito de uma escritora coreana em que em determinado momento ela conta que quando foi para a universidade nos Estados Unidos, seus pais a acompanharam como bons pais que eram. Lá eles foram com ela até o alojamento dos estudantes onde ela iria morar com mais duas colegas. As duas colegas não foram acolhedoras, o que a moça logo percebeu e também seus pais. Quando eles foram se despedir da filha, viram como ela estava destroçada. Era uma nova fase de sua vida e já começava com duas colegas de quarto que não eram nada amáveis. Então sua mãe foi firme e lhe deu conselho: “você sabe que pode transformar qualquer coisa em ouro” (“you can transform anything into gold”). A filha nunca se esqueceu, enfrentou a situação da melhor maneira que pôde e outras situações que viriam no futuro. 
            Bem, isso não é inédito, a gente sabe que pode fazer das tripas o coração para enfrentar qualquer coisa. Só que a frase me pegou de jeito, talvez porque o longo texto já chegava num ponto em que eu emocionada, recebi aquelas palavras como um presente. A mãe coreana deu um conselho à filha que ela nunca mais se esqueceu. Fiquei pensando nos conselhos que a gente já recebeu na vida.
Lembrei-me da indecisão de minha irmã quando terminou o Curso Normal, percebendo que não queria ser professora, e não sabendo nada sobre o que poderia ser. Afinal, fazer o famoso Curso Normal e seguir a carreira de professora era o usual para as moças. Uma vizinha muito bondosa deu à minha irmã não propriamente um conselho, mas uma sugestão de trabalhar num banco. E não é que logo depois o Banco do Brasil abriu pela primeira vez em sua história um concurso em que mulheres puderam participar? Minha irmã fez e foi aprovada. Ser bancária não era exatamente uma vocação, mas melhor que o magistério que não lhe agradava. E depois eu segui seus passos. Ainda não sabia que minha vocação era escrever, mas isto é outra estória. O conselho de nossa vizinha foi bom. Na época era um bom emprego.
Bons conselhos direcionam, iluminam, transformam e salvam vidas. Fiquei pensando em algum conselho de minha mãe. A princípio só me lembrei de coisas práticas como: “você deve sair da mesa sentindo que até poderia comer mais, mas não deve”.
Mas minha mãe fez uma coisa preciosa por mim. Até então eu era já adulta, ainda em sua casa e não obstante toda a educação religiosa e demonstrações de seu grande amor por Deus, eu não conhecia este amor. Ela me deu um livro que já não me lembro o título. Foi a primeira vez que me senti tocada por Deus como Pai, as lágrimas brotaram de meus olhos e eu tive que fechar a porta do quarto para que ninguém visse, mas Deus já havia entrado e fez morada em meu coração. Obviamente que no correr da vida, eu me afastei, me aproximei, me afastei de novo, sempre mundana e sempre sedenta. Aquela atitude de minha mãe e aquele livro também não foram exatamente um conselho, foram muito mais do que isso, foi uma semente plantada, ainda que o solo fosse tão ruim.
Benditos conselhos de mães tão sábias!  
   



sexta-feira, 23 de agosto de 2019

CONFISSÕES DE UMA OVELHA


Nasci uma ovelhinha muito especial. Todas as ovelhas são especiais para o Bom Pastor. É que esta é a minha história. Então, muito espertinha, logo que finquei os pés no chão, admirei os verdes pastos e pensei: que mundo mais lindo! É meu. E era mesmo, Deus nos deu infinitas graças e belezas neste mundo: a terra para morar, a lua para admirar, as flores para nos alegrar, a água para regar, os frutos da terra para nos alimentar. Mas não nos deu este mundo para sermos seduzidos e consumidos por ele.
Logo descobri ovelhas que pastavam do outro lado da cerca. Gente, a grama parecia muito mais verde do que a nossa. Sei que nosso Pastor era bom e nossos prados eram verdejantes, porém não posso precisar se era o brilho daquela grama vizinha que a fazia tão atraente e convidativa. Não pensei duas vezes, forcei a cerca até que me vi do outro lado. Foi quando o Bom Pastor me puxou, me aplicou uns corretivos com seu cajado. Doeu. Eu não desisti, tornei a passar para o outro lado. Outra vez apanhei. Finalmente aprendi que a grama do vizinho só parece mais verde. Não é. E comi tantas ervas daninhas, algumas até venenosas. Poderia ter morrido. O Bom Pastor me salvou, me curou e me bateu com seu cajado. Bendito seja para sempre seu cajado!
E eu era tão travessa, tão forte e ao mesmo tempo tão frágil que acontecia de ficar virada com minhas pernas pro ar sem conseguir me por de pé. A respiração ficava difícil, quase morria sem ar. Ele contava as ovelhas, via que faltava uma, advinha quem? E vinha, me desvirava e o ar chegava límpido em meus pulmões. Perdi a conta de quantas vezes fiquei virada e o Bom Pastor voltava até me encontrar e me desvirar. 
E quando eu fiquei infestada de enxames de insetos, de moscas varejeiras, moscas-do- berne? Que tortura! Cheguei a ver outras ovelhas desesperadas baterem as cabeças contra as árvores para se libertarem do ataque! Por milagre, sempre fomos salvas pelo Bom Pastor que nos banhava em óleo de linhaça, sulfa e alcatrão, aplicando de forma suave o tal preparado principalmente em nossos focinhos, nos inundando de alívio. Como nós, ovelhas, somos indefesas e felizes de nós que nos deixamos conduzir pelo Bom Pastor. As ovelhas do aprisco vizinho foram quase todas dizimadas porque seu pastor era indolente e não cuidava de suas ovelhas. 
De outra vez, em minhas andanças pelas colinas deste mundo, caí de boa altura e fiquei presa num pedacinho de rocha num desfiladeiro sem fim. Simplesmente eu não podia dar um passo que cairia num vale tenebroso. Seria o fim. Senti medo. Intimamente chamei pelo Bom Pastor. Demorou um pouco, tive que sofrer suas demoras, e até que enfim Ele veio. Desceu seu cajado e encaixou direitinho minha cabeça no gancho torto que se forma na ponta. Ele me tirou do vale tenebroso e me levou para o alto. Ele nunca desistiu de mim. Bendito seja para sempre meu Bom Pastor.
Envelheci. Amadureci. Compreendi com meu limitado conhecimento humano que em nossas vidas seremos sempre sujeitos aos perigos, aos sofrimentos, à dor, às perdas, só que o Bom Pastor segue sempre junto de nós, está sempre presente nos verões infestados de moscas que nos atormentam e nos outonos quando descansamos nas sombras ao lado de fontes de águas puras. Ainda contemplo o mundo de prados e campinas, ainda sou fascinada por ele, mas agora mantenho meus olhos fixos no meu Pastor. Ele é o meu Senhor. Amém para sempre.

Fiz este relato me baseando no livro “Nada me faltará”, presenteado por uma querida amiga. O autor deste livro, Phillip Keller, criado na África Oriental, foi durante oito anos um criador de ovelhas. Portanto, ele escreveu este livro como alguém que conheceu pessoalmente todas as fases da vida de uma ovelha. Mais tarde, como pastor leigo de uma igreja comunitária, ele ensinou as verdades reveladas pelo salmo 23 ao seu “rebanho” de pessoas, com real conhecimento de causa, estando apto a discorrer sobre as ressonâncias existentes entre a vida de ovelhas conduzidas por um bom pastor e a vida cotidiana dos homens com Deus.
As ovelhas são os animais mais indefesos que existem. Exigem atenções especiais e cuidados meticulosos quase como os bebês. Um Bom Pastor vive para suas ovelhas. O autor do livro comprovou ao viver vinte e quatro horas por dia cuidando de seu rebanho. Não é por acaso que Jesus nos chamava de pequenino rebanho. O bom Bom Pastor dá a vida por suas ovelhas.       

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

O MORADOR DE RUA


            Há algum tempo um morador de rua tem sido nosso vizinho. Aproveitou um nicho entre um prédio e uma casa e ali fica dia e noite. Algumas vezes percebo que ele não está, mas suas roupas em frangalhos e restos de comida em quentinhas frias indicam que ali é onde mora. Às vezes passo durante o dia e o vejo dormindo profundamente como se estivesse em cama de rei. Certa vez passei e ele estava recostado na parede e de olho no movimento. Me deu um bom dia e eu respondi. Perguntei se não tinha família, se não tinha ninguém. Ele nada disse, apontou para o alto, olhando demoradamente para o céu. Captei a mensagem. Só Deus. E logo em seguida, estendeu a mão para mim. Entendi, tirei o pouco que restava em minha carteira e dei para ele que sorriu amigavelmente.
Vim pensativa para casa pensando em sua história que não conheço. Sei que sua vida não foi fácil, que já nasceu em desvantagem, certamente criado em um ambiente pobre com nenhum ou pouquíssimo acesso às mordomias ou simplesmente o conforto de uma ducha de água quente bem gostosa ou, sei lá, qualquer coisa dessas que temos e nem percebemos como são boas. Este pobre homem não tem culpa de ser um morador de rua. Também sei que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus, mas acredito que nem todo rico seja mau e a misericórdia de Deus é grande. Esta questão de nascer uma criança já condenada a sofrer tanto pela miséria, pelos maus tratos, pelo preconceito e já outra nascer filho de príncipes sempre me faz pensar sobre a inexatidão da vida.
Bem, evidentemente que o caso do morador de rua passou a fazer parte de nossas discussões filosóficas em casa. Como entrou julho com aquele frio atroz de matar que me fez pegar uma gripe do cão, pensei no homem lá fora. Procurei e achei uma blusa quentinha já usada de meu marido. E fui saindo de casa quando ele me flagrou: peraí, esta blusa é minha. Não é mais, respondi, agora é do senhor que está lá fora morrendo de frio. O quê? Redarguiu ele, vai lá e vê. Todo mundo daqui de perto levou blusa e cobertor pra ele. Ali tem agasalhos e cobertores para vários invernos. Eu ri porque sei que ele é espirituoso e brinca muito. Levei a blusa. O homem nem viu. Dormia a sono solto em meio ao burburinho da tarde. Pude perceber que meu marido tinha razão, o homem dorme por cima de pilhas de agasalhos. E já o vi vestindo uma jaqueta acolchoada em ótimo estado. Não sei se é a solução adequada, só sei que as pessoas têm pena. Agora o homem achou como fazer uma tenda com um lençol cor de rosa que ele prendeu pelas pontas nas grades ao lado.
            Bem, no domingo, já ao final da missa das quatro, enquanto a comentarista dava os avisos, eis que o protagonista desta crônica irrompe pelo corredor central da igreja, com um saco preto nas costas e carregando sua magreza extrema, aproximou-se da escada que conduz ao altar. Expectativa geral. Em seguida levantou o braço exibindo um dinheiro nas mãos. Ficou um tempo parado com a nota tremulando ao alto. O padre, a princípio preocupado, acabou abrindo um sorriso acolhedor. Então o homem subiu, depositou seu “dízimo” no último degrau e saindo rindo, triunfante.
            Há alguns dias passei em frente à tenda do homem. Ele estava acordado e fumava lá dentro. Talvez por isso tenha deixado uma fresta para respirar. É esperto, percebeu meus olhos e fixou seu olhar em mim. Ele é um homem, um ser humano, um filho de Deus como qualquer um de nós, com todos os direitos que não tem.  
Hoje passei e vi que o homem não está mais lá. Foi retirado. Meu marido disse que o pessoal da companhia de água precisou fazer a medição e onde estava o registro? Justamente dentro da tenda do sujeito. As pessoas estavam lavando o local para se livrarem do mau cheiro. Esta é a vida real. Foi-se embora nosso vizinho, sabe-se lá para onde.  Foi-se embora com sua história de vida que não conheço nem conhecerei. Nem todo morador de rua nasceu em uma família pobre. Já conheci gente que levava uma vida normal, que acabou sem emprego, sem família e foi para as ruas. Um alcóolatra ou uma pessoa destroçada por um trauma pode acabar nas ruas.
Desejo que nosso ex-vizinho seja feliz. Parodiando Rabindranath Tagore, cruzo com muitas pessoas todos os dias e sei que cada uma delas é meu irmão. O morador de rua também. Sequer eu soube seu nome.   
 

sexta-feira, 19 de julho de 2019

NA CARNE


Em 2008 publiquei meu primeiro livro: Demência, o resgate da ternura. Nele eu relato a experiência com minha mãe que sofreu de demência. Evidentemente que ficava difícil falar sobre a demência sem falar sobre nossos relacionamentos, nosso passado, nossa história. O drama se repete em muitas famílias porque não existe família sem romance familiar, porém não é todo mundo que fala e que escreve. Escrevi rapidamente, em pouquíssimo tempo, como num jorro incontrolável que não é possível segurar. Sentia uma necessidade imperiosa de registrar tudo o que estávamos passando. Nem por um momento pensei em escrever para ajudar outras pessoas, o que, afinal, acabou ocorrendo. Muitas filhas aflitas me enviaram mensagens pedindo o livro e querendo compartilhar suas experiências. Contudo, vieram as críticas. Gelei. Paciência, não havia maneira mais suave para descrever algo tão devastador. Hoje eu não escreveria este livro. Mas está escrito. E por mais devastador que tenha sido, fica patente em todo o livro meu amor por minha mãe.
Há alguns anos tive a grata surpresa de ler uma carta de Graciliano Ramos à sua irmã aconselhando-a sobre um conto que havia escrito. Ele preferiu criticar a elogiar. A irmã escrevia bem, mas faltava uma boa dose de realidade. Lembrei-me de meu livro e de alguns comentários: “mas é triste, muito triste”. E eu rebatia: “sim, é triste, é cruel, mas é verdadeiro”. Mesmo quando os escritores criam uma história, se não temperarem com sua vida e suas experiências, a história ficará pobre. E Graciliano vai fundo: “só conseguimos deitar no papel os nossos sentimentos, a nossa vida. Arte é sangue, é carne. As nossas personagens são pedaços de nós mesmos, só podemos expor o que somos ... apresente-se como é, nua, sem ocultar nada. Arte é isso. A técnica é necessária, é claro, mas se lhe faltar técnica, seja ao menos sincera.”
Sorri intimamente quando li esta carta. Compreendi que meu primeiro livro foi uma experiência maravilhosa, pois deitei no papel não só minha vida, meus sentimentos, meu sangue, minha carne. Deitei no papel toda minha alma, desnudei-a, sem medo. Daquele livro vieram outros e mais outros estão por vir. Sinceramente não sei se não tivesse ousado escrever o primeiro, talvez os contos, as inúmeras crônicas de mais de dez anos, as histórias infantis e os poemas ainda estivessem trancafiados dentro de mim, no mais profundo de meu subterrâneo, esperando para sair. Eu dava os primeiros passos em alguma história que escrevia, encantada com o tesouro que eu aprendia a brincar, mas não passava de uma meia dúzia de cinco como dizia alguém de quem já não me lembro. Não é possível saber, mas suspeito que foi a ternura do primeiro que abriu as portas dentro de mim.   
Dessa forma, resgato um carinho pelo livro que ainda acho que eu não teria escrito se fosse hoje. Um livro que acordou as palavras, o tímido discurso de quem tinha tanto a dizer. Que bom que não foi hoje, que bom que foi na hora certa em que eu vivia um drama do qual pude falar abertamente, sem qualquer pejo, aliás, nunca tive problema algum em falar de mim, do que se passa comigo, haja vista minhas crônicas onde sempre relato um fato real acontecido e de onde tiro minhas elucubrações. Esta sou eu, a autora e personagem. Além disso não há nada. Aprendi com Saramago que o autor é todo o livro e o livro é todo o autor. E aprendi com Gabriel Garcia Marques que a gente sempre escreve o mesmo livro de outras maneiras.
Se não for para abrir o coração e desnudar a alma não vale a pena.  Deixa qu