sábado, 19 de dezembro de 2015

O peregrino





   
Chegamos afobadíssimas, minha irmã e eu na rodoviária de São Paulo. Aliviadas, verificamos que ainda dava tempo pra um café. Depois disso, nos sentamos no meio daquelas milhares e milhares de pessoas que vão e vêm na maior rodoviária da América do Sul. Nem bem sentadas, eu o avistei. Era um homem ainda jovem que caminhava meio cambaleante e vinha em nossa direção. Eu disse, “minha irmã, lá vem mais um, pois era o quarto ou o quinto do dia a nos pedir dinheiro”. Mais um - menos um para abrir a bolsa e dar uns trocados. Eu sabia. Não deu outra.
O homem caminhava pesadamente. Trazia uma mochila velha nas costas. Estava suado e parecia estar bêbado ou talvez tão cansado que sua lentidão não deixava que fosse direto ao assunto. Era pequeno, atarracado e musculoso. Sentou-se na ponta do banco. Depois ajeitou a mochila no chão como se fosse um travesseiro e deitou-se. Nós duas olhando pelo rabo do olho. Não ficou mais que um minuto e levantou-se. Aí veio. Apresentou-se, ensaiando um cumprimento dos mais galantes, pedindo nossa mão para beijar como se fosse tirar a gente para uma dança. As pessoas que estavam por perto olhavam curiosas, afinal todos adoram um espetáculo desde que não sejam protagonistas. Depois da apresentação, pediu um real. Minha irmã, sempre paciente e caridosa, sabendo que poucas pessoas dariam atenção a um homem pedinte e inconveniente, tirou dez reais, dizendo, “um não, dou dez, o senhor vá tomar um café com leite e comer alguma coisa”. O homem parecia não acreditar. Os olhos quiseram marejar, ensaiou um discurso que engoliu e já estávamos nos preparando para sair em busca de nossa plataforma quando surgiu um policial, um segurança da rodoviária que se dispôs a nos defender. Enquanto pedia os documentos ao homem, perguntou se ele estava nos incomodando, ao que respondemos que não, que tinha sido apenas gentil e foi aí que a coisa mudou de direção.
O homem se sentiu profundamente insultado quando o policial nos fez aquela pergunta, como se ele fosse um criminoso. Pedimos que deixasse pra lá e o policial, um tanto quanto frustrado, já se preparava para ir embora, quando o pedinte exigiu mostrar os documentos. Abriu a mochila, ofendidíssimo e apresentou carteira de identidade, CPF, carteira profissional, até comprovante de residência. Tudo o que o policial queria era encerrar o assunto, mas o homem insistia, indignado. Dizia que era um cidadão, um trabalhador, já tinha passagem comprada para o norte de Minas. Enquanto isso as pessoas assistiam a tudo, dando as mais variadas opiniões. As mulheres, em sua maioria, tiveram pena e os homens olhavam com desdém e desconfiança aquele personagem.

Aproveitamos uma brecha e vazamos, como diz meu sobrinho. Já dentro do ônibus, enquanto esperávamos que o carro partisse, minha irmã me chamou a atenção para olhar lá fora. O mesmo sujeito estava deitado na plataforma ao lado. Deitou a mochila no chão, na frente do ônibus e descansava. Mas, tal como fez conosco, não deu um minuto já se levantava e agora discutia com o motorista. É, o mundo não tem jeito, a gente quer consertar e vai ver que é assim mesmo que ele quer ficar. Cada um tem uma história, embarcamos um pouco tristes, era quase Natal.   

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Envelhecer: bom não é, mas que remédio?


 
Lendo o texto que uma amiga postou no Face sobre “não querer ser jovem novamente”, ponderei o seguinte. Bem, mas antes, falando mais sobre o texto, o autor nos diz uma fala de Freud: “a morte é o alvo de tudo o que vive”. Ou seja, nossa vida é um caminhar para a morte, e quer queiramos ou não (na verdade, não queremos), vamos envelhecer, estamos envelhecendo ou já envelhecemos, e não há nada, absolutamente nada que possamos fazer a respeito. Tudo nessa vida envelhece, degenera-se, decompõe-se, e nós também. E depois da velhice, se não morrermos antes disso, morreremos como todas as pessoas, como todo ser vivo, sem exceção.
O autor do texto nos aconselha a não querer ser jovem novamente, a abrir mão da beleza exuberante, do frescor da pele jovem, da firmeza dos músculos, da barriguinha de tanquinho, da memória infalível, e também nos aconselha a abrir mão do passado e abraçar o presente. Se alguém já envelheceu, que aceite com serenidade, sem querer ficar parecendo uma pessoa jovem, e isso também inclui não exagerar nas roupas que só caem bem nos jovens ou nas jovens. Até já li alguma frase de alguma entendida em etiqueta de quem agora não me lembro o nome, que diz nada envelhece mais do que querer parecer jovem para sempre. É verdade. Portanto, é um alívio poder relaxar e deixar acontecer, acolher a velhice com aceitação e bom humor, pois sem o senso de humor a vida fica difícil, até para os jovens.
Há uma luta natural que nos impele a não aceitar a velhice, mas logo nos damos conta de que não há como deter a lei natural da vida. Muitas plásticas, procedimentos cirúrgicos, ou mesmo umazinha que seja (eu confesso que já fiz uma) trará uma alegria momentânea e a ilusão passageira de ter bebido da fonte da juventude eterna e de ter o viço de volta às nossas faces e corpos, mas a velhice logo reclama e aflora aqui e ali mostrando que sua hora já chegou e lá vem com as suas damas de companhia, as rugas, os pés-de-galinha, bigodes chineses, e outros mais. É uma tortura lutar contra isso. É melhor capitular. Não quis nem testar este novo produto tipo botox por algumas horas, uma coisa realmente fabulosa, que tira rugas, manchas, olheiras, tira tudo, um verdadeiro milagre, só que por algumas horas apenas. Até brinquei perguntando se vinha o kit completo, quero dizer, o produto e o antidepressivo porque encarar o real depois é uma lástima!    
É relaxar, é desapegar-se da imagem de jovem que não voltará. É sério, não voltará. É verdade, e ter equilíbrio para tudo, para o comportamento, para as roupas, ter cuidado com maquiagem exagerada. Nada mais triste do que uma velha fantasiada de moça. Nada mais triste do que uma velha querendo viver paixões e prazeres desenfreados. Isto não quer dizer que o amor e o relacionamento entre pessoas mais velhas seja ridículo, não, o amor nunca será ridículo, o companheirismo nunca será ridículo, o sexo nunca será ridículo, a menos que nós os façamos assim.
A despeito de tudo isso, não se pode negar que convivem dentro de nós, a criança, o jovem ou a jovem que já fomos. Sim, somos a mesma pessoa com uma história construída, com lembranças e emoções. No fundo não passamos de crianças que apenas cresceram. Mas essa fase já passou. A menina e a jovem que fui são bem acolhidas em meu interior, tenho o maior carinho por elas porque elas que me sustentam, sem elas e a visão de vida que tiveram, eu não seria o que sou agora, mas é preciso cuidado para não deixá-las me dominar, cuidado ao querer parecer uma menina ou uma jovem quando já não o sou. Ser velha, tirando as limitações físicas, não é ruim. Meu conselho, se é que posso dar conselhos, é sorrir e rir muito. Os pés-de-galinha ficam mais acentuados, mas rir faz bem à alma, e esta, bem, esta viverá para sempre e cabe a nós fazê-la bonita. Uma alma sábia é uma alma bonita. Não deixe morrer a menina que está dentro de você, mas não se vista como ela e nem queira ter a sua carinha. Já passou. Não dá mais.
Como se aproxima o Natal, transcrevo aqui os “Versos de Natal” de Manuel Bandeira que gosto muito e que justamente fala dos cabelos brancos, das rugas e também dos desejos do menino que está dentro de cada um, e também fala do Natal, é claro:
“Espelho, amigo verdadeiro, tu refletes as minhas rugas, os meus cabelos brancos, os meus olhos míopes e cansados. Espelho, amigo verdadeiro, mestre do realismo exato e minucioso, obrigado, obrigado!
Mas se fosses mágico, penetrarias até ao fundo desse homem triste, descobririas o menino que sustenta esse homem, o menino que não quer morrer, que não morrerá senão comigo, o menino que todos os anos na véspera do Natal pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta”.
Gente, até o espelho, que não é mágico, nos fala a verdade!  A gente é que não quer ver!

 


 

 

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Um conto de Natal - (Conto premiado pela Centro Cultural Clube Itajubense em Itajubá - 2005)








 

            Sofia olhava atentamente para o parque de diversões. Via crianças e pais felizes. Pensava que não podia haver felicidade maior na vida do que andar naquela roda gigante ou na barquinha. Ah! Tudo devia ser bom!  Ela suspirou profundamente e se deu conta de que já era tarde. Sofia era uma menina de nove anos, muito pobre. Seu pai estava desempregado e a mãe trabalhava como cozinheira de um hotel elegante. Era uma mulher que quase nunca sorria. Celinha, amiga de Sofia, também era pobre, mas sua mãe, ao contrário da mãe de Sofia, era uma mulher alegre como ela só! Imensa de gorda, sentava-se junto das meninas e conversava com elas. Até tinha enfeitado um pinheirinho apanhado ali mesmo, pertinho da casa. Era dezembro, mês do Natal.

            Sofia não gostava do Natal. Ficava triste por causa dos presentes que nunca ganhava. Tudo bem que o Natal não era só presentes, era tempo de ser feliz, lembrando o nascimento de Jesus, que também fora pobre como ela. Ela sabia disso, mas Sofia queria presentes. Só um. E se Papai Noel existisse mesmo, alguma vez ele já teria trazido um presente para ela. Mas nunca, nunca trouxera. E ela tinha visto que Papai Noel era apenas um homem fantasiado. Foi naquele Natal em que o Velhinho, em pessoa, entregaria presentes para as crianças pobres lá na Prefeitura. Sofia ficou maluca para ganhar um presente. A mãe não quis deixar, disse que Papai Noel só existia para as crianças ricas. Sofia chorou e sob os protestos da mãe foi buscar seu presente. Quando chegou perto da Prefeitura, ficou desanimada. Não sabia que existiam tantas crianças pobres assim. Mas foi furando gente de toda a maneira até chegar perto do Papai Noel. Foi então que a confusão começou.  Crianças e mais crianças avançavam em direção ao saco de presentes e pulavam em cima do Papai Noel que, nessa altura dos acontecimentos, estava bravo e xingava todo mundo. No empurra-empurra a barba branca e o bigode caíram. Foi um vexame, quase uma tragédia. Sofia caiu e por pouco não foi pisoteada. Voltou para casa chorando e pensando que a mãe tinha razão. Não existia Papai Noel. Mas era criança e no dia seguinte, sarou com o abraço afetuoso da mãe de Celinha que lhe deu uma cocada ainda quentinha. Tudo bem. Papai Noel não existia, mas ainda assim Sofia queria um presente.

No ano seguinte, a professora avisou que o Papai Noel estaria na escola e pediu que as mães também fossem. A mãe de Sofia não quis ir, mas acabou cedendo e foram no dia marcado. Só que a fila era muito grande. Se ao menos a mãe tivesse saído mais cedo do serviço. Sofia não se aguentava de tanta ansiedade. Mas bem na hora dela, os presentes acabaram. Ela sentira vergonha, o rosto queimava de vermelho, como se tivesse feito alguma coisa errada. Papai Noel, dessa vez, não ficou bravo, até lhe deu um abraço. Voltaram para casa, mãe e filha, em silêncio. Sofia sentia uma grande vontade de chorar, mas teve medo da mãe. As lágrimas saíam sem que ela pudesse controlar. Foi direto para a cama e chorou tanto, tanto, que pensou que ia morrer de tanto chorar. A mãe, silenciosa e séria como sempre, nem veio lhe dar um abraço. Só mais tarde Sofia compreenderia que o sofrimento amolece o coração das pessoas, mas algumas vezes endurece e para sempre. Naquela noite, ela sonhou que estava em um grande parque de diversões e que tinha todos os brinquedos só para ela. Que sorria, que ria muito mesmo, sentindo o vento no rosto, enquanto a barquinha subia cada vez mais alto. Engraçado, tudo em câmera lenta, como num filme em que ela tinha visto sobre uma menina que se perdia dos pais e quando finalmente os encontrava, ia correndo lentamente, com uma música linda de fundo. E desde então, para Sofia, câmera lenta virou sinônimo de felicidade. Sofia acordou pela manhã, lembrou-se do sonho com carinho, mas jurou que nunca mais iria para nenhuma fila de Papai Noel.

            Era domingo outra vez. Sofia foi chamar Celinha para irem ao parque. Celinha não quis. Sofia foi sozinha e lá ficou com a cara grudada na grade. Não sabia, então, que era observada pelo dono do parque, seu Nicolai, um russo gordo, com cabelos, barba e bigode brancos. Ele chegou perto de Sofia. Como é o seu nome?  Sofia -  Sofia, você quer brincar um pouco no parque? - Eu? Que-quero, mas não tenho dinheiro. - Eu sei, mas eu sou o dono do parque e no meu parque, anda quem eu quiser. Sofia não podia acreditar. Entrou pelo portão principal, como se fosse uma princesa.

            A princípio, ela foi entrando timidamente, mas pouco a pouco, foi pegando o jeito. Foi na barquinha, que subia cada vez mais alto, mais alto. Sofia sentia um arrepio, uma felicidade estranha, como nunca então tinha sentido. O vento batia em seu rosto, como no sonho. Agora ela ria alto, tão alto quanto a barquinha. Lembrou-se de Papai Noel e dos presentes. Não tem importância, eu mesma vou comprar um presente quando crescer. E vou pedir para embrulhar naquele papel verde brilhante com fita vermelha, como nos filmes americanos. De repente, Sofia sentiu que a barquinha estava balançando em câmera lenta. Será? Deve ser impressão. Mas estava, podia jurar que estava. Se fosse um filme, as pessoas poderiam ver seu sorriso, sua cabeça se movendo lentamente com os cabelos soltos ao vento. Não viu que Nicolai a observava lá embaixo. Com as mãos, tentava proteger os olhos da claridade e de vez em quando enxugava as lágrimas. Lembrava-se da filha que perdera há tantos anos. É Natal, ele pensou.

 
 
 
 
 

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Viagem de Natal






Era Natal e todo ano as primas da fazenda iam à Aparecida do Norte para agradecer à Nossa Senhora por todas as graças recebidas. Passaram dois dias por conta da viagem, afinal o melhor da festa é esperar por ela. Era só arrumação de todos os lados. A Nicota arrematando um vestido estampado de última hora, a Sebastiana cozinhando os frangos que iam levar, preparando a farofa. Não se falava em outra coisa. Depois do almoço, ficaram um tempão papeando à toa, fazendo os planos para a viagem.
A Conceição estava meio acabrunhada, ninguém conseguia entender o porquê, até que ela falou, meu sapato tá ruim demais da conta sô, não vai dar pra ir com ele, eu tava com uma vontade danada de comprar um novo, acho que vou na cidade.  A Maria implicou, que bobagem, gastar dinheiro com sapato, imagine se a Ceição não tem sapato bom pra ir, gente? Se ainda fosse eu. Mas todas as outras primas deram a maior força, isso Ceição, vai sim, mais vale um gosto que um tostão no bolso. Na véspera da viagem para Aparecida, a Conceição levantou de madrugada, desceu a montanha, louca pra chegar à cidade e procurar um sapato novo na loja do seu Ari. Seja tudo pelo amor de Deus! Na véspera, à noite, quem falou que conseguiam dormir? Era excitação pura, risadaria. Pensaram até em emendar, ficavam sem dormir conversando, era tão bom! Mas não convinha, era perigoso de dar um sono louco depois do almoço lá em Aparecida. A Ceição não aguentava de vontade de estrear o sapato, foi lá no quarto buscar e ficou desfilando com ele, amaciando de um lado e de outro, fazendo inveja em todo o mundo. A Maria implicou novamente, nem bem morto, já esfolado ... capaz até de dormir com ele. Já faziam planos para ver quem confessaria primeiro. Quando decidiram dormir, passava das duas da manhã. Já tinham tomado bastante leite com goiabada dentro do copo. Cê me chama, Maria? Pode deixar, Nicota. Com Deus, com Deus ...
No dia seguinte, de madrugada, desceram todas com sacolas e risos debaixo do braço. Ainda estava escuro, cheio de estrelas no céu. Chegaram até à porteira que dava para a estrada e lá ficaram esperando a jardineira fretada para ir pra Aparecida. Seu Joaquim ficou de pegar o pessoal do Silvério primeiro, depois passavam lá. Só dos Silvério davam uns quinze, dos Ferraz uns dez, mais todas elas, enchiam o ônibus. Ai que gostosura! Iam rezando o terço, depois cantavam, depois faziam graça. Valia a pena esperar por essa viagem. E tá que esperam e nada do seu Joaquim apontar lá na curva. O dia já tinha amanhecido, a impaciência começou a crescer. Uai, gente, que será que houve? Não pode ter havido nada, senão eles já tinham avisado. A Nicota, de vestido estampado novo, a Ceição, que nessas alturas estava com saudades do sapato velho, o novo dava mostras de apertar do lado. Mais de sete horas da manhã, não é possível. Até que enfim ouviram um barulho, mas não era do ônibus, era do motor do Geraldo que vinha à toda. Chegou e avisou, gente, não vai dar, a sogra do Joaquim empacotou agora de madrugada, a viagem fica pro ano que vem. Não dava pra acreditar, até que bateu um remorso por ninguém sentir a morte de Dona Candinha, a tristeza era pela viagem que não iam mais fazer. Fazer o quê? Deram meia volta e tornaram à fazenda, todas cabisbaixas, murchinhas, suspirando fundo, a Ceição com os sapatos na mão.

A Maria quebrou o silêncio, fizeru eu tomá banho à toa...      

domingo, 6 de dezembro de 2015

Avó





De quando em quando, minha avó tirava os óculos de aros dourados e fininhos que ficavam sempre na ponta do nariz, e parecia fazer um esforço imenso para alcançar o peito do pé. Os dedos finos e brancos se alongavam mais ainda e os lábios se apertavam num franzir de boca, indicando que ela finalmente alcançava e agarrava com dificuldade o pé, com a perna esticada na cama. A testa também ficava franzida em mil rugas. Minha avó tinha uma ferida que coçava, dessas enroladas em gases quilométricas. Aí, ela começava a massagear o pé com movimentos suaves e demorados, para lá e para cá, até que tudo tivesse sossegado. Tornava aos óculos e ao livro de oração, de capa preta e com um dourado finíssimo na borda de cada página, o que fazia um dourado só, grosso e imponente. E lá ficava minha avó, numa quietude de santos, aprendendo o caminho da perfeição e em paz de gente mais velha que não mais precisa correr. Daí a pouco, ela voltava a coçar o pé.
Eu assistia a tudo encantada, por ser ainda criança, pois as crianças sabem tirar encantamento de tudo, até de avó que coça a ferida no pé. Sua imagem, sentada na cama, com a perna magra esticada, não me sai das mais queridas lembranças. Seu cabelo liso, branquinho, puxado para trás e preso por dois pentinhos, sua testa de baronesa, seu perfil nobre e seu olhar afiado. Haverá no mundo coisa mais bonita e terna para lembrar?




                
















quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Anarquia no Brasil


Acordei mais cedo que o habitual. Senti que era um dia diferente. Os ruídos de fora eram estranhos. Abri a janela e vi as ruas de minha cidade repletas de pessoas agitadas. Gente que falava, gesticulava e esboçava sorrisos estranhos, com caretas incrédulas. Outra enchente de lama? Aqui também? Não, o tempo é de chuva, graças a Deus, mas nem tanto. Foi então que soube. Liguei a televisão, e estarrecida assisti ao noticiário que explodia em plantões nervosos. Desceu do Céu um emissário especial trazendo uma ordem suprema, divina e misteriosa que mudaria todo o destino do país.
De agora em diante não mais teríamos presidente, governadores, ministros, senadores, deputados, chefes de gabinetes, secretários, secretários de secretários, prefeitos, vereadores, assessores, assessores de assessores, tampouco partidos políticos. O país, seus estados e cidades seriam agora governados por um conselho de cidadãos, filhos da pátria, voluntários, cujas únicas condições para exercer seus cargos seriam a HONESTIDADE e o AMOR por sua terra e por sua gente. Os salários dos políticos, até então, inacreditáveis e inimagináveis fortunas que fariam inveja ao pobre tio Patinhas, e fariam corar a nababesca corte francesa de Maria Antonieta e sua turma, seriam destinados para creches, educação, saúde, estradas, construção de vias férreas e outras necessidades reais da população. Os funcionários remunerados seriam aqueles que trabalhassem de fato, gente comum. E também aqueles que tivessem por função a verdadeira utilidade pública, como limpeza das cidades, jardinagem, ensino público, enfim, a administração necessária em geral. E semanalmente, os membros do conselho federal, estadual e municipal se juntariam a esses servidores para pessoalmente e efetivamente por a mão na massa, ou seja, cuidar de sua amada terra.
Todos os políticos e afins ladrões cumpririam pena de prisão perpétua e eterna, com tornozeleiras, braçadeiras e o diabo a quatro que os manteriam trancafiados para sempre, ou melhor, passariam o resto da vida limpando o Rio Doce, o oceano e cidades atingidas pela lama tóxica e a lama moral.
Os partidos políticos estavam extintos. O conselho agora seria composto por cidadãos que tomassem um único partido, o da solidariedade. Incrivelmente, logo surgiram pessoas para o conselho voluntário. Aposentados, estudantes, homens, mulheres, jovens e velhos, todos imbuídos do ideal de bem conduzir o país e as cidades para o progresso e harmonia. Afinal, um país sem presidente, estados sem governadores, cidades sem prefeito? Sem secretários, sem vereadores? Seria possível? Anarquia? Fim do mundo? Utopia? Loucura geral?
Não, não, apenas um sonho. Acordei novamente. Olhei pela janela e vi engarrafamentos e pessoas que se arrastavam sob o peso da triste e corrupta realidade brasileira. Olhei para a televisão e assisti às mais incríveis e criativas notícias de corrupção, ao duelo entre políticos bandidos que se digladiam sem se preocupar nem um instante com a pobre população. É, é tempo de oração.


                                                                                               

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Querida prima Hepburn



Quem já não teve uma prima a quem admirasse profundamente? Eu tive e passei a chamá-la de Prima Hepburn porque embora não se parecessem tanto assim, ela me fazia lembrar a famosa atriz, pela elegância e beleza que exalava em todos os momentos de sua vida. Não havia um instante sequer em que a Prima Hepburn não estivesse absolutamente encantadora, fosse num baile, ou preparando um almoço ou simplesmente caminhando. Há mulheres assim, que não se esforçam para serem bonitas, no entanto são e pronto. É algo de dentro, uma elegância interior, um charme nato. Parecem viver sempre envoltas em brumas. Não, não é para qualquer uma.
Ela era um pouco mais velha que nós e viajava para ficar conosco nas férias quando então podia aprender a costurar com minha mãe, que sendo exímia costureira, não teve aluna mais brilhante e eminentemente criativa que minha prima. De qualquer pedaço de pano ela conseguia fazer uma blusa incrível ou um tubinho superelegante à La Hepburn, que faria Madame Chanel babar de inveja! Melhor, se minha prima fosse contemporânea de Madame Chanel, elas teriam formado uma dupla invencível.
A Prima Hepburn sempre conseguia dar um toque diferente nas roupas mais comuns, como por exemplo, no uniforme de colégio. Quem ousaria mexer num uniforme tão tradicional? Pois ela subia um pouco mais a gola ou franzia o ombro e o resultado era surpreendente! Anos mais tarde, quando esperava seu primeiro filho, ela apareceu na cidade usando um vestido de grávida que era um luxo! Imagine, ela conseguiu juntar o azul e o verde numa roupa, coisa impensável para a época! Ninguém jamais havia tentado essa façanha, azul podia ser combinado com outras cores, mas com verde, jamais! E ficou divino! 
Quando ela fez quinze anos, houve uma grande festa em sua casa. Não fomos porque ainda éramos meninas e desajeitadas para bailes, mas fiz questão de ver as fotos deslumbrantes, entre elas a foto do vestido que ela mesma fez e usou. Em certo momento da festa, seu pai apareceu no melhor estilo vindo de dentro da casa, trazendo os sapatos de saltinhos da filha em cima de uma almofada de veludo vermelho. Não sei se por conta de minha alma encantada ou de meus sonhadores olhos de menina, mas poderia jurar que os sapatos brilhavam como se fossem incrustados de diamantes. O baile foi um acontecimento e tanto na cidade e a Prima Hepburn se comportou como uma insigne princesa fazendo sua aparição oficial à sociedade local. Aposto que também Lady Di ficaria meio sem graça se visse minha prima.  
Estávamos presentes no seu casamento, é claro. Eu não podia mais conter minha ansiedade até que ela surgiu e foi caminhando para a igreja dando o braço ao pai. Ela confeccionou seu próprio vestido de noiva e ele era simplesmente inédito. Prima Hepburn escolheu um adorno para a cabeça parecido com aqueles que as espanholas usam ou usavam, com o véu rendado caído assim de cima como uma cachoeira branca e brilhante. Fiquei fascinada!
E assim a querida Prima Hepburn seguiu pela vida, sempre elegante com os filhos e agora com os netos. Sua pose de princesa amadureceu e ela está mais charmosa do que nunca. Mas trago nas minhas mais caras recordações de infância a imagem de minha prima a cantar enquanto fazia os moldes. Depois ela levantava cada peça e balançava a cabeça satisfeita com sua própria obra de arte, o que fazia com que seus longos cabelos negros dançassem de um lado para o outro. Eu, então, com meus cabelos curtinhos de menina, suspirava profundamente e ficava espreitando meio de longe para poder admirá-la à vontade. Não, decididamente não havia prima mais linda e elegante no mundo!  
Saramago disse certa vez: “Que há de mais maravilhoso que o amor e a admiração de uma criança por uma pessoa adulta?” É por aí, como dizem.