Ela saiu de casa de bem com a vida. Para
dizer a verdade sentia-se muito bem neste último dia do ano. Decidiu que
prestaria mais atenção em todos os detalhes, em todas as pessoas, em todas as árvores,
em todas as coisas. O elevador demorou, mas ela não se alterou. Para que a
pressa? Os anos vêm, depois se vão, ficam para trás e novos anos virão. E nós?
Bem, nós viveremos alguns poucos anos porque a vida é curtíssima. Na rua foi
abordada por um casal que pedia informações sobre uma tal loja de artesanato.
Ela não conhecia e ficou desolada por não poder ajudar porque naquela manhã ela
estava realmente de bem com a vida, imbuída dos mais nobres sentimentos e
disposta a salvar o planeta de qualquer catástrofe se fosse preciso. No
supermercado cumprimentou a todos com delicadeza. Viu o preço do espumante
Nero, ficou tentada a comprar, mas desistiu, bobagem, já tinha vinhos e
espumantes para as Festas. Voltou pra casa ainda cheia de boas intenções e bons
propósitos para aquele dia e também para os próximos dias do ano novo que em
poucas horas estaria nascendo. Subiu para a sacada. Percebeu que alguns lírios
da paz estavam secos e foi podá-los. No momento em que podava a flor, foi
inundada por gratas lembranças dos antúrios da mãe, a eterna cuidadora e
guardiã das plantas e flores, e imediatamente lembrou-se de uma frase do pai
que ele sempre dizia se referindo ao casamento com certo escárnio: no início
tudo são flores ... Ela sorriu com
carinho. Sempre se espantava com a liberdade com que os pensamentos transitavam
a bel prazer por sua mente, sempre um puxando outro, sempre uma lembrança
puxando outra. E foi precisamente neste momento que ela sentiu uma ligeira
pontada dentro do peito, uma sensação estranha que ainda não sabia precisar se
era algo físico ou produto de suas emoções, e percebeu que aquele bem estar do
início do dia já não estava tão bem assim. Suspirou profundamente, sentiu
preguiça, lembrou-se das tarefas que ainda tinha por fazer, lembrou-se de
mágoas antigas, porém tentou afastar os maus pensamentos. Saboreou o tutu de
feijão que o marido fizera, pois de fato estava maravilhoso, e o gostinho do
sal, do bacon e o inalterável bom humor daquele homem salvaram o momento
perigoso. Às três da tarde, a tristeza voltou, irrompeu e finalmente imperou vitoriosa.
Derrotada, a mulher ficou imaginando como é que era possível ter outra dentro
de si tão diferente, obviamente que não apenas uma, havia muitas outras com os
mais diversos estados de espíritos e com quem ela era obrigada a conviver
diariamente. E comprovou a verdade de que a alegria é extremamente frágil e
fugidia, uma porcelana finíssima sempre prestes a quebrar, e lutar contra isso
era tão inútil como um exército de fracos gatos pingados a lutar contra legiões
de soldados robustos que se infiltravam por todos os flancos. Tentou em vão
vencer o momento depressivo. Observe que tudo se passava dentro dela, sem que
ninguém percebesse aquele turbilhão de pensamentos e sentimentos
contraditórios. Os primeiros fogos começaram a pipocar já de tardezinha. Ela
foi para a cozinha preparar o restante da sobremesa. Fazia tudo penosamente arrastando-se
como um moribundo que pela última vez se levanta da cama e ainda tenta andar
com passos cambaleantes. A mulher da manhã definitivamente não era a mesma
mulher da tarde. E ela esperou que a noite, sua hora preferida, lhe trouxesse
pelo menos algum sentimento que a consolasse. Então a noite benfazeja caiu
serenamente, e seu espírito foi se fortalecendo pouco a pouco. A julgar pela
paz que agora descia sobre ela como uma água tépida e reconfortante, todos os
demônios do meio-dia voltaram para suas cavernas. Havia música ao longe,
cheiros de carnes assadas, gritos de crianças brincando no por-do-sol,
gargalhadas sonoras. Embora fosse cedo para comemorar o Ano Novo, ela encheu
uma taça de vinho, saboreou o primeiro gole e deu o primeiro sorriso gostoso depois
de horas de aflição. Depois riu de si mesma, de seus medos, de seus conflitos.
Ergueu a taça para o espelho que refletia sua imagem e desejou para si mesma:
Feliz Ano Novo!
A vida real é a melhor ficção. Neste blog estão reunidos acontecimentos do cotidiano, histórias recheadas de verdade, humor e ternura.
terça-feira, 29 de dezembro de 2015
domingo, 27 de dezembro de 2015
Para o Ano Novo
No ano que vem
Ah! ... Eu vou ser feliz
Do jeito que eu sempre quis...
E mais um ano se vai e mais um ano
que vem. Como todos os anos, já refeitos
do sentimentalismo natalino, vamos nos vestir de branco, erguer taças de
champanhe, trocar votos de felicidades, estabelecer novas metas e abrigar no
coração a esperança para tempos melhores. Faz-se um breve intervalo de euforia que
culmina com o baile de réveillon onde
dançamos, comemos e bebemos, como se a vida fosse uma eterna festa! E que seja
pelo menos no último dia do ano! No dia
seguinte, um desconfortável silêncio se instaura como um prenúncio de realidade
com gosto de depressão e ressaca. A correria de fim de ano vem ao encontro da aceleração
planetária, expressão já na moda que traduz essa ansiedade generalizada que
oprime de tal forma as pessoas que não dá a elas a chance de refletir sobre a
vida, antes, obriga-as a vivê-la impetuosamente, passando a falsa impressão de
que o dia de amanhã tem que ser vivido hoje, pois o hoje não foi vivido a
contento, aliás, o mais apropriado seria falar em insatisfação planetária
acelerada. Afinal, donde vem tanta insatisfação, essa sensação amarga de falta,
de ausência?
Será que esse sentimento de incompletude
apareceu depois que o homem, que bem o diga Freud, passada a arrogância de seu narcisismo,
deparou-se com a fragilidade de sua, até então, indiscutível e pretensa
onipotência? Primeiro, descobriu que a Terra não era o centro do Universo, depois
que sua natureza não era assim tão diferente da dos animais e por fim, que ele
não era o senhor de sua própria casa, ou seja, havia uma grande parte da sua
mente que ele não conhecia e não podia controlar. Solapadas, assim, as bases
humanas, restou ao homem viver imprecisamente. Numa tentativa obstinada de
controle, o homem sempre retoma e retorna ao leme, nutrindo-se de uma teimosa
ilusão de que ele é quem manda e conduz. Doce ilusão, ledo engano! O rio corre
mesmo é sozinho. Mas o homem é assim desse jeito, é da essência humana achar
que pode tudo.
Mas,
enfim, como ser feliz nessa imprecisão e ausência de garantias? Como aquietar as ruidosas e dramáticas
emoções se elas nos lembram continuamente de que caminhamos num tênue fio a
milhares de metros do chão? Felicidade não tem fórmula nem receita, cada um que
descubra a sua, talvez “só mesmo em raros momentos de distração”, como disse Guimarães
Rosa que sabia de quase todas as coisas. Vamos vivendo, esbarrando na
felicidade aqui e ali, mas ela se esquiva, não se dá por inteira, até parece
querer nos dizer que ela só é plena quando nos esquecemos de persegui-la. Mas é
Ano Novo, então, vamos parar de reclamar, recomeçar aquela dieta, frequentar um
novo curso, sobretudo vamos amar um pouco mais as pessoas, a nós mesmos, os
animais, a natureza, a cidade em que vivemos, o nosso país, o nosso planeta
ferido e carente de amor. Vamos tentar ser mais tolerantes com a direita e com a esquerda.
E
para terminar, lembre-se, somos
apaixonáveis, somos sempre capazes de amar muitas e muitas vezes, afinal de
contas, nós somos o “Amor” (Carlos Drummond de Andrade).
sexta-feira, 25 de dezembro de 2015
História de Natal
A família era pobre, mas era feliz
porque a felicidade não é ter uma vida absolutamente sem problemas, nem estar
constantemente cheio de dinheiro, sucesso, com filhos perfeitos, carros do ano,
enfim, felicidade não é o que infelizmente hoje em dia se luta bravamente para
conquistar por aí. Saúde por exemplo, é um bem precioso, só que muitas vezes
ocorre que nós, ou alguém nosso fica doente e aí passamos por aflições, mas a
felicidade está acima disso porque a vida é bela mesmo assim. Voltemos à
família em questão. Sim, era pobre, mas no inverno sempre havia o fogão à lenha
que trazia calor e mantinha sempre aquecido o chá de hortelã, antes de dormir.
No verão, havia o rio que fazia uma represa e as crianças e mesmo os adultos se
refrescavam naquela água cristalina. Havia os vizinhos também pobres, porém
todos se ajudavam, de tardezinha conversavam em cadeiras na calçada e assim
levava-se a vida sem muito peso. De vez em quando saía discussões, a mulher trazia
um dos filhos arrastado pela orelha, às vezes xingava as panelas que estavam
velhas, porém insisto, eles eram felizes.
E o Natal chegando. Os rapazes e também
os mais novos sabiam que o Natal era missa do galo e com muita sorte um
franguinho caipira no almoço do dia 25. Não havia presentes nem árvore de
Natal. E naquele ano um dos meninos mais novos cismou que queria uma árvore de
Natal. A mulher olhou para aquele desejo com certa apreensão. Árvore não era
problema porque o irmão mais velho apareceu com um pinheirinho apanhado lá no alto
da campina. Logo alguém surgiu trazendo uma lata com areia e o pinheiro ficou
lá verdinho e pelado num canto da sala. O menino reclamou que para ser árvore
de Natal era preciso pendurar bolas coloridas nos galhos. Não havia bolas
coloridas nem em preto e branco, contudo alguém se lembrou de que as árvores de
Natal também normalmente tinham neve, e o algodão foi logo providenciado, o que
já deixou o pinheirinho com um pálido esboço de árvore de Natal americana, e pôs
o menino mais animado.
Uma semana antes do Natal, a mulher
soube que na casa dos Custódio estavam dormindo no colchão de palha pura, sem
lençol, que um dos garotos estava doente e que mal tinham o que comer. Então
ela deu uma boa vasculhada em seus lençóis velhos, escolheu umas roupas dos
meninos, cerziu umas já esgarçadas, lavou, passou. Que fique claro que ela não
deu do que sobrava, mas do que ainda usava. E quando o filho mais velho que já
trabalhava na canjiqueira apareceu com o dinheiro da semana, ela gastou uma
parte no armazém para comprar mantimentos, e de noitinha fez uma visita aos
Custódio e deixou com eles o que podia. Foi uma festa para aquela família. Logo,
outros vizinhos também deram alguma coisa que foi possível. Quando a mulher
voltou, foi repreendida pelo marido que reclamou que mal tinham para eles e ela
havia gastado um dinheiro que faria falta. A mulher respondeu que sempre se
dava um jeito.
Na véspera do Natal, alguém veio
avisar que havia na estação de trem alguns sacos endereçados à família. A
mulher mandou dois dos filhos irem ver do que se tratava, talvez fosse um
engano, não haviam comprado nada, encomendado nada, não esperavam por nada. Dia
24 de dezembro, chegam os dois moços à casa com três sacos que fariam inveja ao
Papai Noel. Havia uma carta. Era de um primo melhor de vida que há muito tempo
morava na capital e que andava sumido. Pedia desculpas por não mandar nada
novo, embora algumas coisas tivessem sido pouco usadas e talvez pudessem servir
para os meninos. Rasgaram os sacos e toda a família não podia acreditar: roupas
de cama, toalhas de banho e de mesa, roupas de homem, de crianças, vestidos,
sapatos, até brinquedos, tudo praticamente novo. E também havia uma caixa muito
bem embrulhada, envolta em palha e algodão, cuidadosamente lacrada. Quando abriram,
a surpresa foi ainda maior – bolas de Natal, de todas as cores, até douradas e
prateadas. Duas ou três haviam quebrado, mas as outras que eram muitas vestiram
o pinheirinho de Natal no melhor estilo natalino, e o menino mais novo passava
os dias e as noites de olhos arregalados para sua Árvore de Natal. Aquele Natal
nunca foi esquecido.
Esta história é real, bem, quem
conta um conto aumenta um ponto. Digamos que foi inspirada em fatos reais, um
pouco ou muito exagerados por mim. É uma história de minha gente, gerações
passadas que trataram de registrar o fato para que os que viessem depois
ficassem sabendo.
Sabemos que só há uma maneira de
receber, é dando, e isto é uma lei que funciona tanto para o bem como para o
mal. Tudo retorna para nós. Em uma crônica de Cecília Meireles, ela diz: “ ...
e a felicidade não é pedir nem receber: a felicidade é dar. Pode-se dar um
flor, um pintinho, um caramujo, um peixe ...”
Os
melhores presentes nem sempre são os mais caros.
E as Festas estão chegando outra
vez. Feliz Natal!
Natal com presente de lua cheia
Ontem, noite de Natal, fomos passar
algumas horas para a ceia na casa de minha enteada. Como às vezes ou quase
sempre acontece, sou acometida por certa angústia que me aperta o peito e me
faz suspirar. Presumo que esta espécie de melancolia natalina acontece porque
esta época me remete aos pais que já partiram, e neste ano especificamente foi
impossível não me lembrar de minha grande amiga que também partiu tão cedo. Procurei
a sacada para receber aquela lufada benfazeja da noite santa, e qual não foi
minha surpresa ao dar com a lua cheia, brilhante reinando na imensidão do céu,
uma coisa linda de morrer!. Aí eu disse: Motta, você viu a lua? E ele, tomando
calmamente seu vinho, me contou que pela primeira vez, desde 1977, ou seja,
após 38 anos, a lua cheia apareceu para iluminar as festividades do Natal. E
que agora só no Natal de 2034. Só Deus sabe o que será de nós em 2034 ...
E eu fiquei ali curtindo minha taça
de vinho e refletindo sobre a Lua, sobre a Terra e outros planetas que não
vemos. Quando eu era menina, por intuição, já tinha desenvolvido duas
estratégias para afastar o medo ou angústia: uma delas era pensar que tudo
passa, por exemplo, se eu tinha uma prova difícil na terça, eu ficava pensando,
“na quarta tudo terá passado”, e, de certa forma, isto me consolava. Outra
estratégia era sempre olhar a lua e pensar que o universo deixava suspensas no
céu várias bolas, umas maiores, como nossa Terra, e outras bolas menores como a
lua, esta tão perto de nós, tão visível, tão magnificamente linda, ao alcance
de nossos olhos. E quando eu pensava que a vida dos homens se passava em bolas
que giravam num universo sem fim, eu, apenas um serzinho entre milhares e
milhões, meu medo de qualquer coisa ficava menor. Somos tão pequenos!
Bem, entre um vinho e outro, eu me lembrei do
que realmente estávamos comemorando: o nascimento do Menino Jesus. Do Menino
passei para o Pai, o Criador de todas as coisas, assim acredito! Sim só Deus
para criar um cenário tão genial, tão lindo para nos presentear. Tudo aí, de
graça, é só olhar para o Céu! É tudo nosso e tratamos tão mal este nosso mundo,
seja cultivando mágoas, seja maltratando o planeta. Somos muito pequenos!
Hoje, já dia 25, fui à missa de
manhã, e vi na procissão de entrada, o Menino que logo foi colocado no seu
bercinho de palha sob os olhos amorosos de sua Mãe e seu Pai. O Menino que foi
um rei que dizia que seu reino não era deste mundo, que viveu e cresceu
pobremente durante toda sua vida, e que nunca teve nada dele, nunca teve casa,
a não ser o Presépio de Belém, onde nasceu, e a cruz onde morreu, como já bem
nos lembrava Santa Teresa de Ávila. Na hora do “Glória”, aquela música
lindíssima “Glóooooooooooria, in excelsis Deo ...”, eu fui cantando a plenos
pulmões até que vi uma senhora velhinha na minha frente que também cantava
baixinho. Algo nela me lembrou minha mãe, a pele fininha, um jeito qualquer que
na verdade não sei precisar qual era, mas algo nela me despertou a lembrança de
minha mãe velhinha, aí pronto, já não consegui cantar, tranquei os dentes e
abri a comporta das lágrimas que se romperam profusamente. Ao final da missa
todos se cumprimentaram com alegria e eu já me sentia refeita da emoção.
Agora, abro o Face e vejo a neta de
meu marido postar uma frase sobre o Natal: “Minha ideia de Natal, se antiga ou
moderna, é bem simples: amar os outros. Pense sobre isto, por que temos que
esperar o Natal para fazer isso?” Não, não temos. Pode ser um bom propósito
daqui para frente. A lua cheia vai aparecer hoje de novo. Vou curtir este
presente!
terça-feira, 22 de dezembro de 2015
Papai Noel
Nunca me lembro de ter acreditado
cem por cento em Papai Noel. Minha mãe, mulher muito prática para qualquer
questão, nunca falou sobre o assunto. Quando mencionávamos algo como deixar o
sapatinho na janela, ela escutava sem levantar os olhos da costura, e esboçava
um sorriso um tanto sarcástico no canto da boca. Mas não me queixo disso, o
encanto do Natal continuava incólume porque, não menos práticos do que ela, o
que nós queríamos de fato eram os presentes, fossem do Papai Noel, de nossos
pais ou ainda da maravilhosa tia Odete que nos enviava os embrulhos através do
ônibus que ia de Itajubá para Pedralva. E esperar a chegada do ônibus com os
presentes era a nossa alegria do Natal. Certa vez, não deu tempo de os presentes
serem colocados no ônibus, o que ocasionou uma verdadeira tragédia em nossas
expectativas natalinas. Subimos a ladeira para chegar à nossa casa com a boca
no mundo e os olhos inundados de lágrimas. Era a infância, época mágica com ou
sem Papai Noel.
Cada
família lida à sua maneira com essa questão de proteger ou não suas crianças na
crença no Papai Noel. Há os que acham que a verdade deve sempre prevalecer
ainda que os pequenos sofram com a realidade. Outros preferem proteger a
fantasia da criança custe o que custar. Há alguns dias, certa amiga me contou
como sua menininha voltou da escola meio triste pelo trágico boato de que Papai
Noel não existia. Algum coleguinha já mais escolado pela vida se encarregara de
transmitir a notícia. Minha amiga, sem saber como agir, optou por ficar triste
também se solidarizando com a menina. Tudo acabou bem quando o avô interferiu
consolando as duas, garantindo que ele próprio já se encontrara com o “bom”
velhinho.
Penso
que isso não importa, a criança, pela sua própria natureza, consegue transitar entre
a realidade e o mundo da fantasia numa boa, e se vale de mecanismos
desconhecidos dos adultos para tal proeza. Ela saberá de alguma maneira lidar
com a questão da existência ou não de Papai Noel. Certa vez, eu própria, com
receio de que minha mãe me apanhasse no flagrante, coloquei sorrateiramente
meus sapatos num canto meio escondido da janela. Eu já sabia que Papai Noel era
inventado, mas e se ... sabe como é? Sempre bate uma dúvida (se bobear, até
hoje!). Bem, no dia seguinte, constatei que o Papai Noel não viera. Os sapatos talvez
tivessem ficado muito escondidos para serem encontrados ou talvez Papai Noel estivesse
mesmo acostumado a colocar os presentes aos pés de nossa cama, ou talvez ele
não existisse mesmo. Li na crônica de Luís Fernando Veríssimo que o Papai Noel
em pessoa viera um dia até sua casa. Extasiado, Veríssimo abraçou sua bola de
futebol, acionou o revolver com espoleta e saiu correndo pela casa até que na
cozinha se deparou com o Papai Noel sem máscara tomando cerveja com a empregada,
era o Bataclan, uma figura folclórica de Porto Alegre. O escritor não se lembra
como racionalizou a situação, talvez o Papai Noel não existisse ou fosse mesmo
o Bataclan quando não estava em seu serviço habitual. Não importava, tudo ficou bem.
Veríssimo conclui dizendo que “o bom de ser criança é que a gente não precisa
racionalizar”. Verdade.
Entretanto,
a questão não é acreditar ou deixar de acreditar em Papai Noel. Naquela época
eu sofria porque na manhã seguinte quando saíamos de casa, ávidos por exibir
nossos presentes e admirar os das outras crianças, infalivelmente tínhamos que
nos deparar com os olhos das crianças pobres que subiam para o centro. Algumas
paravam para poder ver melhor as bonecas, os caminhões, as bicicletas, e nos
olhavam também. Este olhar eu não consigo esquecer. Lá onde moravam, ah ... lá
é que o “bom velhinho” não aparecia mesmo. E já é quase Natal outra vez.
sábado, 19 de dezembro de 2015
O peregrino
Chegamos afobadíssimas, minha irmã e eu
na rodoviária de São Paulo. Aliviadas, verificamos que ainda dava tempo pra um
café. Depois disso, nos sentamos no meio daquelas milhares e milhares de
pessoas que vão e vêm na maior rodoviária da América do Sul. Nem bem sentadas,
eu o avistei. Era um homem ainda jovem que caminhava meio cambaleante e vinha
em nossa direção. Eu disse, “minha irmã,
lá vem mais um, pois era o quarto ou o quinto do dia a nos pedir dinheiro”.
Mais um - menos um para abrir a bolsa e dar uns trocados. Eu sabia. Não deu
outra.
O homem caminhava pesadamente. Trazia
uma mochila velha nas costas. Estava suado e parecia estar bêbado ou talvez tão
cansado que sua lentidão não deixava que fosse direto ao assunto. Era pequeno,
atarracado e musculoso. Sentou-se na ponta do banco. Depois ajeitou a mochila
no chão como se fosse um travesseiro e deitou-se. Nós duas olhando pelo rabo do
olho. Não ficou mais que um minuto e levantou-se. Aí veio. Apresentou-se, ensaiando
um cumprimento dos mais galantes, pedindo nossa mão para beijar como se fosse
tirar a gente para uma dança. As pessoas que estavam por perto olhavam curiosas,
afinal todos adoram um espetáculo desde que não sejam protagonistas. Depois da
apresentação, pediu um real. Minha irmã, sempre paciente e caridosa, sabendo
que poucas pessoas dariam atenção a um homem pedinte e inconveniente, tirou dez
reais, dizendo, “um não, dou dez, o senhor
vá tomar um café com leite e comer alguma coisa”. O homem parecia não
acreditar. Os olhos quiseram marejar, ensaiou um discurso que engoliu e já
estávamos nos preparando para sair em busca de nossa plataforma quando surgiu
um policial, um segurança da rodoviária que se dispôs a nos defender. Enquanto
pedia os documentos ao homem, perguntou se ele estava nos incomodando, ao que
respondemos que não, que tinha sido apenas gentil e foi aí que a coisa mudou de
direção.
O homem se sentiu profundamente insultado
quando o policial nos fez aquela pergunta, como se ele fosse um criminoso. Pedimos
que deixasse pra lá e o policial, um tanto quanto frustrado, já se preparava
para ir embora, quando o pedinte exigiu mostrar os documentos. Abriu a mochila,
ofendidíssimo e apresentou carteira de identidade, CPF, carteira profissional,
até comprovante de residência. Tudo o que o policial queria era encerrar o
assunto, mas o homem insistia, indignado. Dizia que era um cidadão, um
trabalhador, já tinha passagem comprada para o norte de Minas. Enquanto isso as
pessoas assistiam a tudo, dando as mais variadas opiniões. As mulheres, em sua
maioria, tiveram pena e os homens olhavam com desdém e desconfiança aquele
personagem.
Aproveitamos uma brecha e vazamos, como
diz meu sobrinho. Já dentro do ônibus, enquanto esperávamos que o carro
partisse, minha irmã me chamou a atenção para olhar lá fora. O mesmo sujeito
estava deitado na plataforma ao lado. Deitou a mochila no chão, na frente do
ônibus e descansava. Mas, tal como fez conosco, não deu um minuto já se
levantava e agora discutia com o motorista. É, o mundo não tem jeito, a gente
quer consertar e vai ver que é assim mesmo que ele quer ficar. Cada um tem uma
história, embarcamos um pouco tristes, era quase Natal.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2015
Envelhecer: bom não é, mas que remédio?
Lendo
o texto que uma amiga postou no Face sobre “não querer ser jovem novamente”,
ponderei o seguinte. Bem, mas antes, falando mais sobre o texto, o autor nos
diz uma fala de Freud: “a morte é o alvo de tudo o que vive”. Ou seja, nossa
vida é um caminhar para a morte, e quer queiramos ou não (na verdade, não
queremos), vamos envelhecer, estamos envelhecendo ou já envelhecemos, e não há
nada, absolutamente nada que possamos fazer a respeito. Tudo nessa vida
envelhece, degenera-se, decompõe-se, e nós também. E depois da velhice, se não
morrermos antes disso, morreremos como todas as pessoas, como todo ser vivo, sem
exceção.
O
autor do texto nos aconselha a não querer ser jovem novamente, a abrir mão da
beleza exuberante, do frescor da pele jovem, da firmeza dos músculos, da
barriguinha de tanquinho, da memória infalível, e também nos aconselha a abrir
mão do passado e abraçar o presente. Se alguém já envelheceu, que aceite com
serenidade, sem querer ficar parecendo uma pessoa jovem, e isso também inclui
não exagerar nas roupas que só caem bem nos jovens ou nas jovens. Até já li
alguma frase de alguma entendida em etiqueta de quem agora não me lembro o
nome, que diz nada envelhece mais do que querer parecer jovem para sempre. É
verdade. Portanto, é um alívio poder relaxar e deixar acontecer, acolher a
velhice com aceitação e bom humor, pois sem o senso de humor a vida fica
difícil, até para os jovens.
Há
uma luta natural que nos impele a não aceitar a velhice, mas logo nos damos
conta de que não há como deter a lei natural da vida. Muitas plásticas,
procedimentos cirúrgicos, ou mesmo umazinha que seja (eu confesso que já fiz
uma) trará uma alegria momentânea e a ilusão passageira de ter bebido da fonte da
juventude eterna e de ter o viço de volta às nossas faces e corpos, mas a
velhice logo reclama e aflora aqui e ali mostrando que sua hora já chegou e lá
vem com as suas damas de companhia, as rugas, os pés-de-galinha, bigodes
chineses, e outros mais. É uma tortura lutar contra isso. É melhor capitular. Não
quis nem testar este novo produto tipo botox por algumas horas, uma coisa
realmente fabulosa, que tira rugas, manchas, olheiras, tira tudo, um verdadeiro
milagre, só que por algumas horas apenas. Até brinquei perguntando se vinha o
kit completo, quero dizer, o produto e o antidepressivo porque encarar o real
depois é uma lástima!
É
relaxar, é desapegar-se da imagem de jovem que não voltará. É sério, não
voltará. É verdade, e ter equilíbrio para tudo, para o comportamento, para as
roupas, ter cuidado com maquiagem exagerada. Nada mais triste do que uma velha
fantasiada de moça. Nada mais triste do que uma velha querendo viver paixões e
prazeres desenfreados. Isto não quer dizer que o amor e o relacionamento entre
pessoas mais velhas seja ridículo, não, o amor nunca será ridículo, o
companheirismo nunca será ridículo, o sexo nunca será ridículo, a menos que nós
os façamos assim.
A
despeito de tudo isso, não se pode negar que convivem dentro de nós, a criança,
o jovem ou a jovem que já fomos. Sim, somos a mesma pessoa com uma história
construída, com lembranças e emoções. No fundo não passamos de crianças que
apenas cresceram. Mas essa fase já passou. A menina e a jovem que fui são bem
acolhidas em meu interior, tenho o maior carinho por elas porque elas que me
sustentam, sem elas e a visão de vida que tiveram, eu não seria o que sou agora,
mas é preciso cuidado para não deixá-las me dominar, cuidado ao querer parecer
uma menina ou uma jovem quando já não o sou. Ser velha, tirando as limitações
físicas, não é ruim. Meu conselho, se é que posso dar conselhos, é sorrir e rir
muito. Os pés-de-galinha ficam mais acentuados, mas rir faz bem à alma, e esta,
bem, esta viverá para sempre e cabe a nós fazê-la bonita. Uma alma sábia é uma
alma bonita. Não deixe morrer a menina que está dentro de você, mas não se
vista como ela e nem queira ter a sua carinha. Já passou. Não dá mais.
Como
se aproxima o Natal, transcrevo aqui os “Versos de Natal” de Manuel Bandeira
que gosto muito e que justamente fala dos cabelos brancos, das rugas e também dos
desejos do menino que está dentro de cada um, e também fala do Natal, é claro:
“Espelho,
amigo verdadeiro, tu refletes as minhas rugas, os meus cabelos brancos, os meus
olhos míopes e cansados. Espelho, amigo verdadeiro, mestre do realismo exato e
minucioso, obrigado, obrigado!
Mas
se fosses mágico, penetrarias até ao fundo desse homem triste, descobririas o
menino que sustenta esse homem, o menino que não quer morrer, que não morrerá
senão comigo, o menino que todos os anos na véspera do Natal pensa ainda em pôr
os seus chinelinhos atrás da porta”.
Gente,
até o espelho, que não é mágico, nos fala a verdade! A gente é que não quer ver!
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